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  Título
As imagens-dados. Respostas para perguntas que não fizemos
Autor
Ivana Bentes
Resumo Expandido
“Forma que pensa”, forma que afeta e é afetada, as imagens estão carregadas de qualidades e potencialidades, como sintomas e recorrências, emergências que formam uma "pele da cultura”, as imagens espalhadas e integradas ao território urbano e as redes sociais, investidas de afetos, corpo, pensamento.



Com a popularização das tecnologias de captura, produção e difusão das imagens em um nível massivo (pós mídias e redes sociais), o campo da visualidade enfrenta novo desafios e impasses. O volume (big data) de imagens as tornam “incomensuráveis” sem ferramentas de extração de dados em grande quantidade, e mesmo invisível em termos de recorrências e singularidade.



A massa de imagens e as imagens produzidas e postadas massivamente em diferentes plataformas, redes sociais, blogs, microblogs, sites, etc. extrapolam o campo das análises clássicas e podem ser pensadas como “seres vivos”, onde somos imagens entre imagens. O que poderia ser uma população de imagens nesse novo contexto? Ao longo da história da visualidade, as imagens vieram ganhando autonomia e se tornaram elas mesmas sujeitos e personagens.



A partir das experiências realizadas pelo Labic (Laboratório de Imagem e Cibercultura da UFES) em parceria com o Medialab da UFRJ, em especial a imagens mineradas partir da hashtag #vemprarua no Twitter durante as Jornadas de Junho de 2013 vamos retomar as questões de base: quais a condições e os principais impasses para a extrações de imagens dos links do twitter, das páginas do Facebook e Instagram. Como a criação de visualizações e as práticas de visualização podem gerar novos problemas no campo das análises e teorias em torno da visualidade. A categorização das imagens e o processo de cruzamento dos parâmetros de análise.



Trazemos aqui algumas das hipóteses que norteiam a análises. Os “tipos” de imagens, os personagens presentes, as cenas, e as relações com o imaginário. O ponto de vista a partir do qual as imagens mineradas foram tomadas e a relação com a cena e contexto. Quem fotografa? As cenas “reconstruídas” pela junção de imagens parciais e as formas de reconstruir realidades pensadas no seus efeitos estéticos mas também políticos (a narrativa dos manifestantes e a da policia), jurídicos (imagens testemunhas, usadas como provas), etc.

Como as imagens produzem controvérsias? A apropriação das imagens por grupos distintos, as imagens “escrachos”, paródicas e meméticas, as imagens como estratégia de resistência e percepção e construção de “espetáculos de resistência” pelas imagens de impacto. A construção de personagens políticos como releitura da iconografia da cultura de massa (Batman pobre etc) para “figurar” nas imagens dos protestos.



Na constituição desse novo campo com os estudos sobre a vida e morte das imagens, sua emergência, desaparecimento e ressurgência utilizamos as abordagens de Georges Didi-Huberman sobre os estudos de Aby Warburg, o conceito de inconsciente ótico, de Walter Benjamin e questões contemporâneas sobre o ato de fotografar e filmar como atos de vigilância e controle generalizados.



O conceito de inconsciente visual e a recorrência das imagens em Walter Benjamin mostram como a história da cultura pode ser analisada como o «inconsciente da visão ». A fotografia revelando esse inconsciente ótico, assim como a psicanálise revela o inconsciente pulsional. Didi-Huberman, relendo Aby Warburg mostra como as imagens (no sentido antropológico), independentemente dos suportes e mídias utilizadas se transmitem. Para Warburg o "inconsciente visual" trazido por Benjamin só poderia ser revelado interrogando este "inconsciente do tempo" que é a "sobrevivência" das imagens através do tempo: uma imagem impactante, que move e comove, provocaria um processo catártico que reatualiza no instante um complexo de representações coletivas. Em que medida podemos nos perguntar por esse dispositivo em meio a urgências do presente nas imagens-dados?

Bibliografia

DIDI-HUBERMAN. Imagem Sobrevivente. A história da arte e tempo de fantasmas. Contraponto. 2013



LATOUR, Bruno. Reagrupando o social: uma teoria do Ator-Rede.

EDUFBA/Edusc. Salvador. 2013



RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Editora 34, 2009.



BENTES, I. . A Reconfiguração do Olhar- Novos Dispositivos. In: Antonio Fatorelli. (Org.). Fotografia e Novas Mídias. 1 ed. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2008



BENTES, I. A câmera de combate e o animal paranóide. in O Inimigo e a Câmera. Forum Doc. 2013 http://www.forumdoc.org.br/?page_id=2525