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  Título
O Grivo e sua "culinária sonora" no Cinema de Cozinha de Cao Guimarães
Autor
Marina Mapurunga de Miranda Ferreira
Resumo Expandido
O presente trabalho é um dos resultados da pesquisa de mestrado "Culinária Sonora: Uma análise da construção sonora d'O Grivo em cinco micro-dramas da forma de Cao Guimarães", a qual foi desenvolvida, realizada e apresentada no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense - UFF no período de 2012 a 2014. Este artigo se trata de uma abordagem do trabalho de construção sonora do duo de arte sonora O Grivo nos filmes contemplativos de Cao Guimarães. Estes são chamados pelo próprio realizador de "micro-dramas da forma", são filmes que as imagens são captadas por estímulo, perplexidade ou espanto, pelo desejo que move o artista a filmar algo. Todos fazem parte também do Cinema de Cozinha de Cao Guimarães, o cinema que experimenta. É dentro deste Cinema que provamos a culinária sonora d'O Grivo que vem nos apresentando seu "minimalismo amplificado", por meio de seus objetos, instrumentos, mecanismos e máquinas sonoras.



O Grivo é formado por Marcos Moreira Marcos (o Canário) e Nelson Soares. O duo trabalha com música experimental, instalações e esculturas sonoras, lutheria criativa, sound design, trilha sonora/musical e captação de som. Também realizam pesquisas no campo da Nova Música (as tendências musicais do século XX) para a criação de suas obras sonoras, seja no audiovisual quanto em suas instalações sonoras que acabam também sendo plásticas, como suas esculturas sonoras para serem vistas e ouvidas. Algumas características do trabalho d'O Grivo que podemos perceber bem nas galerias e nos concertos é o minimalismo, a amplificação e a espacialização sonora, a criação/construção de suas máquinas sonoras e o uso da técnica estendida na execução musical com instrumentos tradicionais. Aqui colocamos o minimalismo não como a tendência musical surgida na década de 1960 nos Estados Unidos. Chamamos aqui de minimalismo o uso de sons mínimos, vindos de simples objetos, de materiais reaproveitados (ex.: copo descartável) e/ou de matérias orgânicas (ex.: folhas secas), sons que para serem ouvidos necessitam quase sempre de amplificação, por isso caracterizamos o som d'O Grivo de minimalismo amplificado. A amplificação dessas máquinas e mecanismos sonoros se dão por meio de microfones e captadores conectados a diversos tipos de alto-falantes/caixas de som. Além disso, o duo tem como referência o trabalho do músico e compositor John Cage, pensando em uma escuta mais atenta, na economia dos sons e na variação de timbres.



Nas obras audiovisuais de Cao Guimarães podemos perceber a presença das artes plásticas e da fotografia. As imagens visuais captadas por ele são plásticas, onde nosso olhar se perde (e se encontra) entre linhas, curvas, traços, formas geométricas, cores. Guimarães também desloca seus filmes das galerias para a “forma cinema” e vice-versa, assim como fazem os videastas brasileiros da primeira geração do vídeo no Brasil. Esse movimento de deslocamento ocorre também com O Grivo que desloca a música das salas de concerto para os cinemas e galerias. Cao Guimarães e O Grivo têm um pensamento plástico, enquanto Cao trabalha plasticamente a imagem visual, O Grivo trabalha plasticamente a imagem sonora. Há um respeito mútuo entre sonoro e visual no trabalho dos dois, podemos perceber isso na montagem entre estas duas instâncias (sonora e visual), uma contribuindo com a outra, respeitando o tempo de respiração, descanso, entrada, saída, fade, corte e enquadramento. Como dito por Bernd Schulz, na arte sonora, o som se torna material, O Grivo são artistas sonoros. Para fazer som para cinema, é preciso recriar sons, construir, não apenas utilizar o som direto da gravação. O Grivo consegue fazer isso com sons musicais e sons minimalistas apoiados em suas obras de arte sonora. Seriam as artes plásticas, a fotografia, a música, a arte sonora escolas para obras audiovisuais.
Bibliografia

CAGE, John. Lectures on Nothing. In: Silence‐Lectures and Writings. Hanover: Wesleyan University Press,1961.

CHION, Michel L'Audio-vision: Son et image au cinéma. 2 ed. Paris: Armand Colin, 2012.

CURTIS, Scott. The sound of early Warner Bros. Cartoons. In: ALTMAN, Rick (ed.). Sound theory/ Sound practice. New York: Routledge, 1992. p. 191-203.

EISENSTEIN, S. M.; PUDOVKIN, V. I.; ALEXANDROV, G. V. Declaração sobre o futuro do cinema sonoro. In: EISENSTEIN, S. A Forma do Filme. Trad. Teresa Ottoni. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2002.

GUIMARÃES, Cao. Cinema de Cozinha. Texto escrito para a Mostra Restrospectiva “Cinema de Cozinha”, exibida no SESC SP e SESC Vila Mariana, em São Paulo. Outubro de 2008a. Disponível em: . Acesso em: 1 mar 2014.

LICHT, Alan. Sound Art: Beyond Music, Between Categories. United States: Rizzoli International Publications, 2007.