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  Título
Processos de criação da montagem e som de Eles voltam e Alemão
Autor
Kira Santos Pereira
Resumo Expandido
Parte da pesquisa de Doutorado da autora sobre o processo de criação do som no cinema contemporâneo Brasileiro, enfocando o papel da montagem, a comunicação promoverá uma análise comparativa entre os processos criativos e resultados estéticos das trilhas sonora dos filmes Eles Voltam (2012) e Alemão (2014).

Eles Voltam, dirigido por Marcelo Lordello, com montagem de Eduardo Serrano e Desenho de som de Guga S. Rocha, se identifica esteticamente, bem como em seu modo de produção, com parte expressiva do que se costuma chamar de "cinema independente" brasileiro. Presa por uma estética próxima ao naturalismo, (nas palavras do diretor, evitando "excessos de condução"), e este preceito se extende por todas as áreas "técnicas", desde a direção de atores à fotografia, passando pela arte e a montagem. Sua trilha sonora segue a mesma toada, sendo extremamente precisa e concisa, colaborando de forma expressiva com a construção da narrativa fílmica. De modo geral, aposta na expressividade dos ambientes e ruídos diegéticos, que sutilmente acrescentam valor (Chion, 1994) às imagens. Conta com apenas três entradas curtas de música extra-diegética, em momentos-chave da narrativa: A primeira é a canção "Tudo o que você podia ser", cantada por Milton Nascimento, que entra nos créditos trazendo uma espécie de interpretação para a jornada que acompanharemos a seguir. A segunda entrada, composta especialmente para o filme pelo DJ Caçapa, é um fraseado de violão que se sobrepõe às imagens de Cris e Elayne caminhando pelo campo do MST. Esta será a primeira cena em que Cris parece relaxar e de fato interagir com esse novo ambiente, e o violão, que remete a uma estética regionalista (que também se aproxima ao violão usado na canção de Lô Borges), vem ressaltar esta aproximação e início da transformação da personagem. A terceira entrada da trilha virá para fazer uma ponte entre a última cena da praia e a volta de Cris a Recife, sendo acolhida por sua avó. Seguindo uma estética similar à cena do MST, a música é um fraseado bastante simples de violão, lento, com um tom melancólico. Ajuda a pontuar o fim desta etapa importante da jornada, e sugerir uma introspecção da personagem, já transformada, refletindo sobre o que será de sua vida ao retornar à cidade e à sua família.

Alemão, filme dirigido por José Eduardo Belmonte, com montagem de Bruno Lasevicius, supervisão de som de Alessandro Laroca e mixagem de Armando Torres Junior, já é uma produção com orçamento bem mais generoso. Sua meta de público é proporcional, o que de alguma forma irá influenciar a linguagem escolhida para o filme, que poderíamos categorizar como próxima aos filmes de ação hollywoodianos. Em pesquisa anterior (Pereira, 2010), pude verificar que esta equipe de som costumeiramente utiliza como referência estética filmes blockbusters americanos. A utilização dos ruídos, bastante expressiva e cuidadosa em sua execução,não é tão diferente daquela de Eles Voltam em suas intenções estéticas - as diferenças virão muito mais do primor técnico resultante do maior orçamento e maior experiência dos integrantes da equipe de Alemão. O que irá diferenciar a trilha sonora dos filmes analisados será a presença ostensiva, no filme de Belmonte, da trilha musical composta por Guilherme e Gustavo Garbato. A cada momento de maior emoção ou tensão, violoncelos e tímpanos se fazem presentes, conduzindo com mãos firmes a atenção do espectador. Diferentemente da trilha musical de Eles Voltam, que parece emanar do espaço retratado e da relação estabelecida entre este e a personagem principal, aqui a música, mimetizando a estética musical do cinema hollywoodiano, parece estar sendo imposta às imagens, sem alcançar aderência ao universo narrativo do filme.

Partindo destas observações de resultados, será promovida uma reflexão sobre como as diferentes intenções estéticas e principalmente os diferentes modos de produção dos dois filmes influenciaram no processo de criação de suas trilhas sonoras.
Bibliografia

CARREIRO, Rodrigo. 2013. A câmera diegética: legibilidade narrativa e verossimilhança documental em falsos found footage de horror. In: Revista Significação v. 40.

COSTA, Fernando Morais da. 2011. Os caminhos dos usos dos silêncios (ou a lembrança que não passa de John Cage). Revista Ciberlegenda. Niterói, Universidade Federal Fluminense. CHION, Michel. 1994. Audio-vision: sound on screen. New York: Columbia

University Press

GORBMAN, Claudia.1987. Unheard Melodies: Narrative Film Music.

Bloomington & Indianapolis: Indiana University Press; and London: BFI

Publishing

KASSABIAN, Anahid. 2003. The sound of a new film form in INGLIS, Ian (org).

Popular Music and Film. London: Wallflower Press

MANZANO, Luiz Adelmo. 2005. Da edição de som ao sound design - evolução

tecnológica e a produção brasileira. Tese (doutorado) ECA/USP. São Paulo, ECA/USP

PEREIRA, Kira. 2010. Se podes ouvir, escuta: a gênese audiovisual de Ensaio Soobre a Cegueira. Dissertação (mestrado). São Paulo,ECA/USP.