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  Título
O som ao redor - Estado. políticas públicas e crítica cinematográfica
Autor
Fernando Weller
Coautor
AMILCAR ALMEIDA BEZERRA
Resumo Expandido
O Estado de Pernambuco, anualmente, emprega milhões de reais no financiamento direto de sua produção audiovisual. O mais recente edital do Funcultura destinou 11,5 milhões de reais ao setor, um aumento de 500% em relação ao primeiro edital lançado em 2003. Tal investimento resulta em um evidente retorno simbólico, na medida em que o cinema feito no Estado avançou em espaços de exibição nacionais e internacionais, atraindo interesse da crítica e prestígio junto ao público nacional e em festivais internacionais.

Percebe-se que a recepção crítica dos filmes financiados pelo edital é tomada como um dos elementos centrais nos discursos institucionais que dão suporte às ações do Estado. Há uma relação evidente entre o contínuo aumento do financiamento estatal e a recepção cinematográfica em suas múltiplas dimensões. Na presente comunicação, entretanto, delimitamos o nosso escopo de análise apenas à crítica cinematográfica publicada, especialmente, na chamada grande imprensa, nos jornais de circulação regionais e em seus portais e blogs na internet. Nosso corpus compreende um conjunto de textos extraídos, principalmente, dos jornais Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, O Globo, Jornal do Commercio, Diário de Pernambuco, Zero Hora, Estado de Minas e A Tarde. Avaliamos o prestígio ainda presente na crítica vinculado a meios impressos em um contexto de fragmentação e dispersão dos discursos cinematográficos no contemporâneo. Tais instâncias ainda incidem sobre as ações o interesse do Estado.

A comunicação procura, assim apontar hipóteses que avaliem em que medida a crítica cinematográfica influenciou a intervenção do Estado no campo da Cultura na última década, favorecendo o protagonismo do Cinema e, finalmente, ressignificando a própria noção construída de Cultura Pernambucana. O objetivo é avaliar do ponto de vista discursivo o impacto das politicas públicas implementadas no Estado na década de 2000 no contexto cinematográfico nacional e, em contrapartida, buscar compreender o impacto da recepção de tal cinematografia nas políticas públicas em curso. Compreendemos o papel determinante da crítica cinematográfica vinculada aos sistemas de legitimação cinematográfica (festivais, redes sociais, imprensa, publicidade institucional) no deslocamento das prioridades estatais que resultaram na eleição do Cinema como representante contemporâneo da chamada Cultura Pernambucana.

Durante as gestões públicas ligadas ao movimento armorial, sobretudo nos anos 70, o Cinema nunca fez parte das preocupações prioritárias das políticas oficiais. O interesse do Estado, nesse sentido, é recente. Acreditamos que ele tenha sido legitimado por discursos produzidos pela recepção dos filmes contemporâneos. O que se percebe, atualmente, é que a cinematografia pernambucana tem subido, cada vez mais, o tom crítico em relação às políticas modernizantes do Estado, sobretudo no contexto urbano recifense e, no entanto, o financiamento à produção aumenta progressivamente. O reconhecimento da força estética e política dos filmes nos fóruns legitimadores nacionais e internacionais é, finalmente, o maior atrativo estatal, mesmo que tal reconhecimento se dê a partir de visões contrárias às políticas supostamente modernizadoras do Estado.

Nesta proposta, abordaremos como estudo de caso a repercussão alcançada na imprensa nacional pelo filme “O som ao redor” (2013) de Kleber Mendonça Filho. Crítica virulenta ao modo de vida da classe média recifense, a produção pernambucana foi financiada pelo Fundo de Incentivo a Cultura do Estado e caiu nas graças da imprensa especializada.

Bibliografia

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