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  Título
Vidas-lazer: o "efeito Coutinho"
Autor
vinicios kabral ribeiro
Resumo Expandido
Tabu e Patty já nos falaram de seus desejos e de suas vontades em ter/viver uma vida-lazer. A primeira, em Madame Satã (Karim Aïnouz, 2002), tem no amor e nos objetos, especialmente na máquina singer de pedal, sua possibilidade de vida-lazer. Já Patty, em Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (Aïnouz e Marcelo Gomes, 2009) nos fala do desejo em ter uma casa, sair da prostituição, estabelecer uma relação monogâmica, amar e ser amada, “uma vida lazer pra mim e pra minha filha e mais nada”.

Minha pesquisa de doutoramento engendra-se na reflexão sobre as possibilidades de vidas-lazer, a partir do cinema brasileiro contemporâneo. Das tantas questões que me tomam: o que é uma vida-lazer? Como viver uma vida-lazer? E o que desejos/buscas por vidas-lazer nos dizem sobre nós, nosso mundo, nossos sonhos e nossos projetos de felicidade?

Uma hipótese de investigação é encontrada no trabalho do cineasta Eduardo Coutinho. Especialmente nos filmes Babilônia 2000 (2001) e Edifício Master (2002). Consuelo Lins (2004) reforça em suas reflexões a potência e pungência da fala e das vidas comuns na construção estética do cineasta, de maneira que “diante de vidas precárias atravessadas por uma imensa violência, nos deparamos com uma palavra vigorosa que inventa sentidos, cria vocábulos, mistura termos de diferentes origens, uma palavra que tenta escrever, enfim, sua própria gramática (LINS, p.179, 2004)”.

O que chamamos aqui de “efeito Coutinho” – esse atentar-se ao comum, ao cotidiano, ao detalhe da casa, da mobília, da sobremesa recém-preparada e das vidas invisíveis, reaparece em recentes produções brasileiras. Em O Céu Sobre os Ombros (Sérgio Borges, 2010) podemos perceber a centralidade e o protagonismo das vidas comuns. Murari, Everlyn e Lwei são personagens/pessoas que se encenam. Um atendente de call center, torcedor do Atlético Mineiro, membro da religião Hare Krishna e skatista; uma psicóloga e mestre em literatura que vivencia a experiência transexual; um escritor africano que vive no Brasil e não consegue finalizar seus livros.

Everlyn, Lwei e Murari, são personagens complexos e atravessados por múltiplas questões e sonhos. Entretanto, priorizo Everlyn em minhas análises, especialmente se pensarmos em sua possível ininteligibilidade e abjeção (Butler, 1999) e por habitar margens e transitar no entre-lugar (Santiago, 2000). Everlyn, que também tem na prostituição uma forma de garantir sua existência, ao ser questionada por um aluno sobre suas necessidades afetivas, revela que as satisfazem parcialmente com os clientes. Ela também quer um amor, mas é cética em relação a ele.

Suely, logo no início do filme O Céu de Suely (Karim Aïnouz, 2006), nos conta um pouco de sua história. Seu corpo desliza por um descampado de terra batida e árida. O super 8 granulado, as cores saturadas. Ela diz: “eu fiquei grávida num domingo de manhã, tinha um cobertor azul de lã escura. Mateus me pegou pelo braço e disse que me fazia a pessoa mais feliz do mundo. Me deu um CD gravado com todas as músicas que eu mais gostava. Ele disse que queria casar comigo ou então morria afogado”. Ao longo do filme sabemos que ela foi abandonada por Mateus. Ele havia prometido voltar e trazer uma gravadora de DVDs e, com o trabalho em conjunto, criariam o filho. O diretor Karim Aïnouz, em entrevista à revista Cinética, revela o quanto essa atenção aos detalhes, aos objetos e às vidas comuns se deu a partir do olhar de Coutinho. Não apenas uma influência estilística e estética, mas direta, sobretudo nas leituras coletivas de roteiros feitas por Coutinho, Aïnouz, Sergio Machado e outros cineastas. Feldman e Cléber Eduardo (2007) ao sublinharem essa preocupação sutil e política da vida comum em O Céu de Suely tem como resposta: “foi o Coutinho quem me chamou a atenção pra isso” (p.13). O objetivo dessa proposição para o seminário é traçar e analisar intercessões de um possível “efeito Coutinho” e um “efeito vida-lazer” em algumas obras do cinema brasileiro contemporâneo.
Bibliografia

BUTLER, Judith. Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do “sexo”. In: Louro, Guacira Lopes. O corpo Educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.

EDUARDO, Cléber; FELDMAN, Ilana. A política do corpo e o corpo político - o cinema de Karim Aïnouz. Revista Cinética, Rio de Janeiro, 2007. Disponível em: http://www.revistacinetica.com.br/cep/karin_ainouz. htm Acesso em: 23 abr 2014.

LINS, Consuelo. O cinema de Eduardo Coutinho: uma arte do presente. In: TEIXEIRA, Francisco Elinaldo (org.). Documentário no Brasil - Tradição e Transformação. São Paulo, Summus Editorial, 2004.

SANTIAGO, Silviano. Uma Literatura nos Trópicos. 2 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.