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  Título
The Passions: movimentos mínimos na obra de Bill Viola
Autor
NINA VELASCO E CRUZ
Resumo Expandido
Esse trabalho pretende discutir a relação entre fotografia, vídeo e pintura a partir da série The Passions (2000) produzida pelo videoartista Bill Viola. Essa série se caracteriza pelo uso do ultra slow-motion, criando o que chamarei aqui de "movimentos mínimos" em cenas que dialogam com a história da pintura. Union, por exemplo, se apresenta como um díptico em monitores de plasma de alta definição, em que uma figura do sexo feminino e outra do sexo masculino se contorcem, reagindo a uma fonte de sofrimento não identificada. Os vídeos tem duração total de 8 minutos e os movimentos são tão lentos que um espectador desavisado pode pensar se tratar de fotografias e estranhar a mudança de posição dos personagens ao passar novamente pela instalação momentos mais tarde. Considerado “um estudo sobre o sofrimento e o êxtase”, o vídeo causa um estranhamento perturbador, principalmente pela alta definição da imagem e pela lentidão do movimento que parecem intensificar o sentimento dos personagens. Outro trabalho de Viola que usa a mesma técnica é o The quintet of the astonished (2000), no qual cinco personagens são apresentados com expressões faciais fortes que sugerem sofrimento e/ou prazer. Aqui também os movimentos mínimos são a chave para que seja possível uma percepção nova da facialidade e do afeto. Emergence (2002), por sua vez, faz referência direta a uma obra clássica da história da arte, o afresco Pietà, de Masolino. De um ataúde de mármore uma figura masculina muito branca surge aos poucos até se colocar de pé, jorrando água para todos os lados. Duas mulheres assistem emocionadas a aparição, em referência às figuras de Maria e S. João Evangelista, na pintura original. Para além do tema bíblico da ressurreição, o que a instalação revela através do uso do slow motion é a profundidade dos sentimentos vividos por aqueles que assistem à cena.

O uso de imagens estáticas no cinema já foi bastante discutido, principalmente em experiências radicais como a do cineasta Chris Marker, em La Jetée. O filme, composto unicamente fotografias (chamarei assim as imagens completamente estáticas dentro de uma sequência fílmica) é geralmente associada a uma determinada forma de se relacionar com o tempo e com a memória. O que vemos em The Passions, no entanto, não são exatamente fotografias, mas imagens estáticas com leves movimentos. Esse efeito é permitido pela tecnologia digital e produz uma nova espécie de “entre-imagem”. Se Bellour (BELLOUR, 1997) atribui a invasão da imagem “congelada” ou “fotográfica” no cinema da década de 60 ao surgimento do vídeo e ao tratamento da imagem eletrônica na videoarte, poderíamos dizer que o digital amplia as possibilidades das passagens entre as imagens na contemporaneidade, criando novas imagens híbridas que sugerem o caminho oposto, proporcionando uma certa invasão do movimento nas imagens fixas.

Bibliografia

AUMONT, J. O olho interminável (cinema e pintura). São Paulo: Cosac & Naif, 2004.

BELLOUR, R. Entre-imagens: foto, cinema e vídeo. Campinas: Papirus, 2001.

MANOVICH, L. The language of new media. Cambridge: The MIT Press, 2001.

MULVEY, L. Death 24x a second: stillness and the moving image. Londres: Reaktion Books Ltda, 2006.

SUTTON, D. Photography, Cinema, memory: the crystal image of time. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2009.