/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
O contato com índios isolados entre encenação e historicização
Autor
Clarisse Maria Castro de Alvarenga
Resumo Expandido
Os Arara (Andrea Tonacci, 1980-), Corumbiara (Vincent Carelli, 2009) e a série Os Últimos isolados (Adrian Cowell, 1999) são documentários realizados no Brasil em momentos diferentes, mas seus diretores se engajam em um mesmo desafio: filmar ao longo de um extenso período situações de contato com índios isolados. Pretendo, neste trabalho, comparar a forma como cada um desses filmes historiciza a situação do contato. Minha atenção estará voltada para a encenação, a narração, a reencenação e a apropriação de material de arquivo (trechos de outros filmes, fotografias e iconografias). A minha hipótese é de que a historicização do contato conduz esses filmes a criticar o seu próprio processo no que concerne à aproximação ao outro e ao seu mundo.

A proposta de Os Arara (1980-) era acompanhar a Frente de Atração da Fundação Nacional do Índio (Funai), que pretendia estabelecer o contato com os Arara, grupo indígena Caribe, do Pará (PA) cujo território fora atravessado pelo traçado da Rodovia Transamazônica. O projeto em princípio previa a produção e exibição de três episódios, de cerca de 60 minutos cada. A última parte do trabalho - justamente o momento em que o contato com os Arara se efetiva - foi filmada, mas permanece inacabada até os dias de hoje.

Por sua vez, o cineasta Vincent Carelli realizou ao longo de 20 anos (1986-2006) uma série de filmagens cujo objetivo também era acompanhar o trabalho da Funai, registrando as evidências que pudessem convencer a justiça brasileira da existência de um pequeno grupo de índios Kanoê. Ao longo das buscas, surgem, contudo, uma série de obstáculos, que vão desde as ações de fazendeiros, advogados e trabalhadores rurais da região, que tentam a todo custo impedir o acesso da equipe ao território, até a esquiva dos próprios índios, que se escondem, resistindo ao contato.

A série Os Últimos isolados foi montada em 1999 a partir de um farto arquivo filmado entre 1967 e 1998 por Adrian Cowell e os cinegrafistas que atuavam junto dele. Nesses três trabalhos, Cowell trata da situação de primeiro contato de formas diferentes. Em Fugindo da extinção, acompanha a atuação dos irmãos Villas Bôas, em suas tentativas de contatar os Panará. A partir do contato, os índios são transferidos para o Parque Nacional do Xingú e retomam o território mais de 20 anos depois. O Destino dos Uru Eu Wau Wau é um filme no qual a relação tensa entre os índios e os colonos para os quais o governo doa as terras indígenas é problematizada. Em Fragmentos de um povo, o contato com os Avá-Canoeiro não chega a acontecer. O filme acompanha a expedição fracassada da Funai, que pretendia evitar que a Usina de Serra da Mesa inundasse as terras dos Avá-Canoeiro. Em todos os filmes de Cowell observa-se um tratamento em perspectiva para o contato, que é sempre problematizado em suas implicações e conseqüências para os grupos indígenas envolvidos.

Tal como afirma Jean-Louis Comolli, num documentário, “a mise-en-scène é um fato compartilhado, uma relação” (2008, p. 60). Em se tratando do que aqui chamo de “filmes de contato”, numa referência aos documentários que registram situações de contato com índios isolados, a materialidade dos encontros entre os sujeitos que filmam e os sujeitos filmados é, não apenas decisiva, mas, incontornável, o que os conduz ao ponto extremo da tradição da mise-en-scène documentária. Se em todo e qualquer documentário a relação entre quem filma e quem é filmado é fundamental para a constituição do filme, nos filmes de contato essa relação é problematizada desde os primeiros passos da aproximação, passando pela cena do contato em si até as consequências e reflexões sobre esse singular encontro, que os filmes elaboram a partir da historicização. Neste trabalho proponho, portanto, verificar o rendimento que os filmes de contato podem trazer aos estudos do documentário na medida em que historicizam a relação entre quem filma e quem é filmado e elaboram uma crítica dos processos de aproximação.

Bibliografia

ALVARENGA, Clarisse. Os Arara: imagens do contato. In: Revista Devires. Fafich/UFMG, v. 9, n.2, jul/dez 2012, p. 24-49.

_________. A Câmera e a flecha em Corumbiara. In: Revista Devires. Fafich/UFMG, v. 9, n. 1, jan/jun 2012, p. 118-127.

CARNEIRO DA CUNHA, Manuela. Índios no Brasil: história, direitos e cidadania. São Paulo: Claro Enigma, 2012.

_________ (org.). História dos índios no Brasil. São Paulo: FAPESP/Companhia das Letras/SMC, 1992.

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: a inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

MARGULIES, Ivone. Reenactment and afiliation in Andrea Tonacci’s Serras da desordem.In: Cinephile. Department of Theatre and Film. Londres: University of British Columbia, n 7, V. 2, 2011.

MESQUITA, Cláudia. Obra em processo ou processo como obra? In: ciclo “Cinema Brasileiro Anos 2000: 10 questões”, CCBB, RJ, 2011.

MILANEZ, Felipe. Os Inimigos de Adrian Cowell. In: Catálogo do 17º Forumdoc.BH: Filmes de Quintal, 2013.