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  Título
A representação da juventude marginalizada nos anos 1980
Autor
Maria Alzuguir Gutierrez
Resumo Expandido
Esta apresentação consistirá de uma análise comparativa entre dois filmes realizados entre os anos 1980 e 1990 na América Latina: ¿Cómo ves? (México, 1985), de Paul Leduc, e Rodrigo D. No futuro (Colômbia, 1990), de Víctor Gaviria. Buscaremos analisar como aí se representa a juventude: os dois filmes procuram mostrar sua cultura? Retratam-na de maneira “realista” ou experimental? Com esperança de redenção ou sem saída? Trata-se de um retorno à denúncia, de uma superação dela, ou de ambas as coisas? Trata-se de cineastas que estão mais uma vez “agarrando pueblo”? Ou de artistas que, impossibilitados de elidir um dos temas mais candentes de nossa condição, procuram novas formas de abordá-lo? De que maneira estes filmes se relacionam com a tradição do cinema moderno?



Neles, renovam-se os laços entre a ficção e o documentário, relação que tanto havia fertilizado nosso cinema. A respeito de ¿Cómo ves?, os críticos ressaltaram o caráter quase documental da obra. Mas como isto é possível, em se tratando de um filme de tão elaborada mise en cadre? A obra segue a linha de outras anteriores e posteriores de Leduc, tais como Frida, naturaleza viva, Barroco e Latino bar. Trata-se da mesma quase ausência de diálogos, que dá lugar a uma densa elaboração sonora, que acompanha uma imagem sumamente trabalhada, tanto em termos de cenografia como de movimentação de câmera. Já em Rodrigo D, estamos diante de uma estética de um realismo cru.



De acordo com Jorge Ruffinelli, Gaviria descobre entre os jovens marginalizados da periferia de Medellín a existência de uma cultura própria, com seus códigos, sua práxis, um horizonte de expectativa e uma estética musical. É através da incorporação de tal estética que o filme parece aderir ao universo destes jovens, e onde parece buscar uma ponte para comunicar-se com eles. Em Rodrigo D o rock pauleira é incorporado como música extra-diégetica, marcando caminhadas e gestos do protagonista, quase como se, nestes momentos, pela banda sonora, o filme assumisse uma perspectiva subjetiva indireta livre.



Em ¿Cómo ves? é também através da cultura do rock que o filme parece querer estabelecer uma comunicação com os jovens. Neste caso, o rock está presente em cena, em várias apresentações de bandas conhecidas à época no México. O rock pode ser visto como um signo da colonização cultural estadunidense que testemunhamos em outros elementos de ¿Cómo ves?, mas, nos dois filmes, revela-se como uma expressão autêntica da cultura e da revolta destes jovens. As letras dos rocks ouvidos em um e no outro devem ser destacadas.



De acordo com Ruffinelli, “não há no cinema de Gaviria um ‘discurso’ de classe social, nem uma vocação à denúncia direta, nem um esquema convencional de ‘explorados’ e ‘exploradores’” (2004: 28/9). Afastando-se de uma interpretação sociológica da realidade, Gaviria retrata a crise existencial de um destes jovens, fazendo do filme, segundo Ruffinelli, um “tratado da melancolia”. Também Leduc se aproxima do universo afetivo do jovem sem perspectiva: seus devaneios e sonhos se integram a uma realidade de miséria e violência.
Bibliografia

BERNARDET, Jean-Claude. Cineastas e imagens do povo. São Paulo: Cia das Letras, 2003.



PARANAGUÁ, Paulo Antonio. Le cinéma mexicain. Paris: Centre Georges Pompidou, 1992.



RUFFINELLI, Jorge. Víctor Gaviria – los márgenes al centro. Madrid: Casa de América/Turner, 2004.