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  Título
Ideias nas mãos: política, imagem e anacronismos
Autor
Juliano Gomes
Resumo Expandido
Em Julho passado, abro a internet pra acompanhar um protesto do qual estava vindo, contra a política de transportes do governo e prefeitura do Rio. Vi então algo que pareceu novo: ao mesmo tempo fluxo ininterrupto e, extremamente interrompido, intervalado, cortado. O “diretor” daquela cena concluiu, ao vivo, que a melhor maneira de chegar à delegacia seria correr gravando, caso algo acontecesse (filmar tornou-se, nesses dias, uma garantia, uma segurança ao contrário, reatualizando a câmera como uma arma). Assim, a estabilização “necessária” do empunhar da pequena câmera – um aparelho celular – deixou de ser uma prioridade. O que importava ali afinal era: a continuidade e o presente. Trata-se então de não só um modo singular de figurar a rua, esse espaço qualquer, que metaforiza a cidade, mas afinal de senti-la e ocupá-la, de lhe insuflar imaginário, de furar a disputa que se dá sobre a imagem desse espaço , violando-o, tornando-o espelho de um movimento próprio do corpo, concebendo uma imagem que parece obstinada (pois há uma finalidade específica da encenação que parece ignorar esse potencial abstrato do visual) e caótica como formulação. Esse divórcio do próprio enunciado esbaforido que a acompanha parece criar uma imagem quase impossível de se ver, uma imagem literalmente que não vê, e, por não ver, narra a rua, narra a parte invisível da rua que é ativada justamente pela sua ocupação e uso. Não se trata aqui de uma nostalgia das disjunções do cinema moderno entre som e quadro, mas de uma insuspeita linha que se desenha entre aqui e lá, passando por fora da arte, para quem sabe ressituá-la – é somente essa dança que a mantém de pé. Pois o que se viola aqui é o primado de continuidade entre o olho e visor (é algo como uma ideia nas mãos, o que vemos; uma ideia das mãos), entre enunciado e imagem (o que vemos não pode sugerir nenhuma finalidade objetiva), entre o pré e o pós-cinema, causando uma metamorfose que solicita um olhar para o que se dá a ver como matéria, o que está ali como experiência sensível e bruta, e que solicita um regime de atenção típico do espectador cinematográfico, um olhar montador, que desequilibra as forças. Essa entrada, sem pedir licença, no cinema parece apontar uma possibilidade de rachadura nos dois campos, de uma possibilidade de resistência abstrata porém afirmativa (não se trata de deriva aqui) na imagem, que expõe a fragilidade fundadora do telejornalismo (a vacuidade da imagem), e evoca um repertório de imagens do “cinema puro” (das vertentes que buscavam o específico pelo caminho do não-figurativo) dando-lhe uma posição veemente em relação ao mundo como imagem. Um registro longe da cabeça, do rosto, da identidade afinal, para uma espécie de composição semi involuntária do corpo movente, que registra somente os traços que decorrem deste trajeto durante aqueles minutos de tensão. Não é de um esvaziamento que se fala aqui, mas de uma composição de um modo, de uma imagem política no sentidohard (que almeja uma alteração específica dentro do espectro do sistema político e que narra um embate com as forças do Estado: polícia, delegacia, prisão) que cria comunidade, mesmo que fugaz, em torno de um gesto que se desdobra numa visibilidade que consegue representar esses cacos que compõem a rua e a cidade, essa cacofonia, numa síntese que viola os dois regimes que evoca (o jornalismo militante e a vanguarda). Daí, uma possibilidade de fuga e de invenção, de ressignificação da experiência sensível da cidade e de sua organização do que se pode ver ou não, naqueles poucos minutos, numa corrida à delegacia, com uma imagem urgente e inútil, propondo sua maneira de habitar a cidade como imagem (pois é neste terreno onde as maiores batalhas hoje travadas, especialmente no Rio), e da imagem com a cidade, como possibilidade de cartografia. Esse é o principal desafio da reflexão que aqui se almeja.
Bibliografia

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_______________.Toda nova arte poderia ser qualificada como montagem IN: Cem

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