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  Título
Tony Manero e Prófugos: as armadilhas do gênero em Pablo Larraín
Autor
Luiza Cristina Lusvarghi
Resumo Expandido
Os filmes “Tony Manero” (Chile, Brasil, 2009), “Post Mortem” (Chile, Brasil, Venezuela, 2011) e “No” (Chile, USA, França, México, 2012), e a série de TV “Prófugos” (HBO, 2011-2013), refletem como poucos a dura transição de um governo autoritário, liderado por um dos ditadores mais violentos do continente, para uma democracia, lançando um olhar nada condescendente para a classe média, a corporação policial, as instituições governamentais, e a própria esquerda. Os três filmes acabaram se tornando conhecidos como a trilogia do cineasta sobre a ditadura chilena. Mas “Tony Manero” possui um diferencial em relação aos demais, que se reflete na recepção do filme ao longo do mundo. Comédia negra para a crítica de jornais como The Guardian, Village Voice, um thriller de suspense psicológico para o New York Times, drama criminal para sites como IMDB, o Internet Movie Data Base, o filme de Larraín, que celebra uma profícua parceria entre o diretor e seu ator-fetiche, Alfredo Castro, não pode ser resumido, como ocorre com “No”, a um drama sobre a ditadura chilena. E o mérito não repousa apenas sobre a surpreendente performance de Castro, que ganhou diversos prêmios por sua brilhante atuação.

Para efetuar essa análise, serão levadas em conta a classificação de Steve Neale (2000) sobre os gêneros hollywoodianos. No Brasil, os estudos de gênero se basearam com frequência, no modelo hollywoodiano, sobretudo para classificar os policiais, termo genérico que incluía tanto filmes como “Lucio Flavio, Passageiro da Agonia”(1977, Hector Babenco) e “Assalto ao Trem Pagador” (1962, Roberto Farias), quanto os filmes sobre assaltos e crimes como os dramas em séries “Os mysterios do Rio de Janeiro” (1917), com direção de cena de Coelho Neto e produção da Rio Film, e “A quadrilha do esqueleto” (1917), produzido pela Veritas Film, de Irineu Marinho (FREIRE, 2011: 153, 154). O modelo dessas produções se originava certamente das produções americanas, mas Paulo Emilio Salles Gomes (1980) se refere a filmes sobre crimes extraídos de grandes manchetes da cobertura jornalística policial como a solução local para enfrentar a dura concorrência do produto estrangeiro . “A ideia de que o crime compensa – ao menos como enredo de filme – deve ter inspirado os responsáveis pelas produções que tentaram arrancar o cinema brasileiro do marasmo em que mergulhara por volta de 1912” (SALLES GOMES, 1980, pag 37).

No caso da televisão, a dificuldade de um estudo de gênero reflete não somente a insipiência de uma produção cinematográfica na América Latina, como ainda o desenvolvimento de um formato de ficção seriada, a telenovela, em que o melodrama ocupa posição preferencial na estrutura narrativa, e que comercialmente é mais interessante.

O termo policial traz um problema para o gênero na América Latina, a de que as fronteiras entre o bem e o mal estariam mais borradas, sobretudo levando-se em conta o papel ambíguo que as corporações policiais assumiram ao longo das ditaduras civis e militares. Muito diferente do nosso modelo, o seriado policial e de ação americano. Para Mittell (2004), a origem das séries policiais da TV, os cop shows, estaria vinculada ao cinema, e obedeceria a duas vertentes principais, a dos filmes policiais vinculados ao ciclo de cinema semidocumental americano, que remete aos docudramas, e ao noir, expressão cunhada pela crítica francesa para dramas criminais em que a solução do enigma acaba relegada a segundo plano pela crítica social, e pelo dilema do protagonista, que frequentemente deve burlar alguma regra para obter a verdade.

A perspectiva de gênero em “Tony Manero” e “Prófugos”, o primeiro um drama sobre um serial killer durante a ditadura Pinochet, e o segundo uma série de TV de suspense e ação sobre o narcotráfico, acaba por deixar a questão social num plano secundário, ainda que os conflitos sociais justifiquem a violência e a transgressão da lei. Para Naremore (2008), a América Latina possuiria uma vocação quase natural para o noir.

Bibliografia

BROOKS, Xan. Tony Manero Film Review The Guardian, edição de 10 de abril de 2009 http://www.theguardian.com/film/2009/apr/10/tony-manero-film-review acesso em 15 de abril de 2014.

KRUTNIK, Frank (1991). In a lonely street: film noir, genre and masculinity. New York: Routledge.

LUSVARGHI, Luiza (2012). Crimes Contemporâneos – Crítica social e Neopolicial na América Latina in “Televisão, Formas Audiovisuais e de Documentário, org. BORGES, Gabriela, PUCCI Renato Luiz, SOBRINHO, Gilberto Alexandre, vol. II, São Paulo, Campinas e Faro (Portugal): Edição Socine/Unicamp/Universidade do Algarve – CIAC

NAREMORE, James (2008). More than night. Film Noir in its context. Expanded Berkeley: University of California Press.

NEALE, Steve. Genre and Hollywood. Londres: Routledge, 2000.

ROTHER, Larry. The Dictator and the Disco King The New York Times, edição de 2 de julho de 2009.

Acesso 15/04/2009http://www.nytimes.com/2009/07/05/movies/05roht.html