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  Título
Transgressor profissional: aspectos do percurso de Carlos Reichenbach
Autor
Daniel P. V. Caetano
Resumo Expandido
Este estudo procura apontar como as circunstâncias do percurso profissional de Carlos Reichenbach foram determinantes para a construção do seu estilo e para o desenvolvimento das principais questões que nortearam seus filmes. Assim, propõe-se uma análise da relação entre algumas características da sua obra e os contextos de determinadas circunstâncias vividas pelo cineasta.



Para isso, irei tratar da sua participação no grupo geracional-cinematográfico do Cinema Marginal, no final dos anos 1960, procurando compreender como as características e as questões do chamado "Cinema Cafajeste" marcaram os filmes de Reichenbach ao longo da década seguinte. Em seguida, vou analisar o contexto em que Reichenbach se envolveu com a constituição de uma empresa de publicidade e cinema, a Jota Filmes (em que sua forma de trabalho ganhou, segundo Inácio Araújo, suas características fundamentais). Também tratarei da célebre parceria com produtores da Boca do Lixo como Antonio Polo Galante, responsável por filmes como "A Ilha dos prazeres proibidos" e "Império do desejo" - cuja relação direta com a fase marginalista já terá sido estabelecida de antemão, para que se compreenda em que medida esta "volta à Boca" representou um desfecho para o "Cinema Cafajeste". Em seguida, irei tratar das circunstâncias do seu envolvimento com duas iniciativas de produção cinematográfica em forma de cooperativa (a Brasil Internacional, responsável por "Amor palavra prostituta", e, em seguida, a Embrapi, responsável por "Extremos do prazer"), no momento em que o modelo da Boca do Lixo entrou em crise. E, finalmente, tentarei tratar do novo esforço feito por Reichenbach, em meados dos anos 1980, de criação de uma empresa coletiva para produção e distribuição internacional (a Casa de Imagens, empreitada que o juntou a Andrea Tonacci, Inácio Araújo, André Luiz de Oliveira e outros), esforço abandonado após a recessão do período Collor.



A partir dessa análise das circunstâncias de produção ao longo de duas décadas e suas relações diretas com as propostas estéticas dos filmes realizados, pretendo observar de que maneira, ao longo do percurso sinuoso de sua carreira, Carlos Reichenbach pôde construir seu estilo em meio aos obstáculos e vicissitudes do contexto cinematográfico brasileiro - e como estes foram determinantes para algumas das características mais vigorosas de sua obra, como a reconciliação com o universo utópico como forma de liberdade, as narrativas marcadas pelo uso de releituras e ressignificações, a crítica feroz ao cinismo niilista. A partir da constituição destes filmes em meio a esta trajetória observada, creio ser possível traçar uma relação direta com algumas das vertentes mais vitais do contexto cultural brasileiro, marcadas pela herança do pensamento antropofágico.
Bibliografia

ARAÚJO, Inácio, Cinema de boca em boca – escritos sobre cinema (org. TOSI, Juliano). São Paulo: Imprensa Oficial, 2010

CALLEGARO, João “Nasce o cinema cafajeste”. Material de imprensa de As Libertinas (1968), disponível no MAM-RJ.

DELEUZE, Gilles, Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.

DELEUZE, Gilles, e GUATTARI, Félix, Mil platôs - capitalismo e esquizofrenia, vol. 1. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995.

PEREIRA, Carlos Eduardo. Carnavalização e antropofagia no metacinema de Carlos Reichenbach. Tese (Doutorado em Comunicação) – Universidade Federal Fluminense, 2013.

REICHENBACH, Carlos, “Alice, Audácia e o nascimento da Boca do Lixo”. Folha de São Paulo, 30/09/1997.

__________, “Anarquia poética contra o cinemão”, entrevista para a Folha de São Paulo, 12/01/1979. Disponível em http://cinema-de-invencao.blogspot.com.br/2007/04/anarquia-potica-contra-o-cinemo.html