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  Título
Imagens em disputa e memórias rarefeitas
Autor
Andrea França Martins
Resumo Expandido
Jânio a 24 Quadros (1982) não monumentaliza certa visão da história - o processo transicional como propulsor de novas utopias - nem tampouco faz da história uma experiência de perda capaz de unir os que lutaram contra as perversidades praticadas pela repressão política. O filme trabalha com arquivos de cinejornais, das emissora televisivas e dos jornais impressos dos anos 60/70, de modo a criar uma distância em relação às imagens - reflexiva, frequentemente irônica – que desnaturaliza o que estamos vendo e favorece uma leitura do processo de transição política no país em toda sua ambiguidade.



Realizado por um documentarista que não integrou a geração que se opôs ao golpe civil-militar (como S.Tendler, E.Coutinho, João Batista, entre outros), Luiz Alberto Pereira, mais jovem, explora através das (re)encenações, da narração em voz over e da montagem reflexiva o caráter conciliador da Lei da Anistia de 1979 e o gesto de apagamento de um passado de abusos que ela representa. Ao afirmar em tom jocoso que “a anistia mesmo não sendo total é a luz que renasce em corações cansados pela solidão e a falta de esperança (...)”, que a anistia representa “um Brasil livre para brasileiros livres, a democracia!”, a narração faz do acontecimento da transição “democrática” a representação de uma política de esquecimento. Se, como coloca Jean Marie-Gagnebin, a imposição do esquecimento se dá como “um gesto forçado de apagar e de ignorar, de fazer como se não houvesse havido tal crime, tal dor, tal trauma, tal ferida do passado” (2010, p.170), o filme antecipa cinematograficamente, através de seus procedimentos expressivos, uma crítica à cultura da memória negociada e ao processo de pacificação de um passado repressivo.



O filme está sintonizado com uma produção cinematográfica que, na década de 1980, fez da ironia e do humor dimensões integrantes da prática documental. Jânio a 24 Quadros, assim como O terceiro milênio (1981), de Jorge Bodanzky, interessam-se pela trajetória de personagens públicos e políticos dentro de uma chave que abre o sentido (a significação) para os sentidos (o riso, a dúvida como sensações) do espectador. As imagens, a narração em voz over, as repetições e a montagem disputam o sentido histórico, político e cultural dos acontecimentos políticos recentes. Em Jânio a 24 Quadros, contudo, as imagens aparecem na sua dimensão de artefato, afirmando o mundo do espetáculo e do consumo como utopias mais fortes do que o mundo sonhado pelas utopias políticas.

Bibliografia

COMOLLI, J.L. (2002). “El espejo de dos caras”, in: Imagen, política y memoria (Yoel, G.), Buenos Aires: Libros des Rojas.

DIDI-HUBERMAN, G.(2003). Devant les temps. Paris: Les Editions de Minuit.

GAGNEBIN, J.M. (2010). O preço de uma reconciliação extorquida. In: TELLES, E. e SAFATLE, V. (orgs.). O que resta da ditadura. São Paulo: Boitempo.

MORETTIN, E., NAPOLITANO, M., KORNIS, M (orgs.). História e documentário. Rio de Janeiro: ed. FGV, 2012.

POIVERT, M. (2007). L'Événement comme expérience: les images comme acteurs de l'histoire. Paris: Hazan, Jeu de Paume.