ISBN: 978-85-63552-17-4
| Título | Imagens do Estado Novo: cinema doméstico em um filme inacabado |
|
| Autor | Thais Blank |
|
| Resumo Expandido | Em janeiro de 2007 comecei a trabalhar ao lado do cineasta Eduardo Escorel na edição de um filme sobre o Estado Novo brasileiro (1937-1945). Composto de 5 episódios com 50 minutos de duração cada, o documentário Imagens do Estado Novo investiga este período da história política brasileira a partir de cinejornais, propagandas e filmes domésticos realizados nos anos 1920 e 1930. Em entrevista concedida aos pesquisadores Eduardo Morettin e Mônica Kornis, em 2009, Eduardo Escorel afirmou que o filme não se tratava “tanto de um documentário sobre o Estado Novo, e sim um filme sobre as imagens a respeito do Estado Novo”.
Inteiramente construído a partir de imagens de arquivo, o documentário de Escorel rompe com a lógica seguida pelo próprio autor em seus trabalhos anteriores que compõem a série iniciada em 1990. Em 1930: Tempo de Revolução (1990); 32: A guerra civil (1992) e 35: o assalto ao poder (2002) o diretor optou por intercalar entrevistas de historiadores e especialistas renomados com imagens da época e um texto em off informativo. Já Imagens do Estado Novo teve sua estrutura criada a partir do diário de Getúlio Vargas e das correspondências trocadas entre ele, seus ministros, parentes e o povo. O texto em off, narrado na própria voz de Escorel, quando não faz a leitura das cartas ou do diário, assume a tarefa de provocar o olhar do espectador e conduzi-lo a questionar as imagens que assiste. Neste filme, Escorel se afasta do documentário clássico e se aproxima de uma forma ensaística abrindo espaço para a reflexão sobre o próprio processo de produção das imagens. O filme inacabado de Escorel (o diretor ainda luta para conseguir financiamento para a compra dos diretos autorais das centenas de imagens vindas de arquivos de diferentes partes do mundo com as quais compôs seu documentário) mistura filmes oficiais do DIP e de cinejornais americanos, alemães e ingleses, com imagens domésticas filmadas por famílias brasileiras. Na entrevista concedida em 2009, Escorel afirmou que o documentário segue uma estrutura bastante rigorosa no que se refere ao uso das imagens “oficiais”, com o propósito de não utilizá-las como mera ilustração o diretor optou por respeitar sempre a sua datação, as imagens aparecem no filme seguindo a cronologia de sua realização. Já a produção doméstica utilizada foi produzida, na maior parte dos casos, antes aos eventos de 1937 e não há no filme um compromisso de data-las. Para Escorel, “é como se houve uma linha em que, com as imagens de cinejornais se contasse uma história, e uma outra linha em que, com as imagens de família se contasse outra” (2009). Seguindo a linha dos últimos trabalhos apresentados na Socine, proponho traçar o caminho migratório de algumas imagens domésticas retomadas por Eduardo Escorel. Realizando um movimento que parte da obra em direção ao arquivo, analisaremos as estratégias estéticas e narrativas empregadas pelo diretor na apropriação destes filmes familiares e as transformações ocorridas no interior das imagens ao longo da trajetória percorrida no tempo e no espaço. Tendo participado por mais de dois anos do processo de edição do filme, proponho trazer para a comunicação alguns relatos desta experiência e apresentar os dilemas e controvérsias que estiveram presentes em nossa mesa de montagem e fazem parte da constituição desta obra ainda em processo. |
|
| Bibliografia | CATALÀ, José María (2007), “Las cinizas de Pasolini y el archivo que piensa” in Antonio Weinrichter (ed), La forma que piensa. Tentativas en torno al cine-ensaio, Navarra: Gobierno de Navarra, pp. 92-110
|