ISBN: 978-85-63552-17-4
| Título | Mise-en-scène e montagem no cinema de arquivos |
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| Autor | Julia Gonçalves Declié Fagioli |
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| Resumo Expandido | O presente trabalho tem como objetivo perceber as relações entre mise-en-scène e montagem no cinema de arquivos através da análise de trechos do filme “O fundo do ar é vermelho”(Chris Marker, 1993), que revelem essa aproximação entre as operações fílmicas de forma significativa. A montagem dos arquivos representa uma leitura das mises-en-scène sociais (ALBERA, 2000). As imagens feitas em uma situação de luta política possuem características (como o enquadramento, por exemplo) que dizem respeito ao olhar de quem filmou e se relacionam com a situação em que foram produzidas. Porém, é apenas ao serem articuladas pela montagem que passam a configurar uma escritura singular que, nesse caso, acaba por unir as operações fílmicas, de modo que, no cinema de arquivos, o gesto de montar é, ao mesmo tempo, pôr em cena.
O cinema feito a partir de imagens de arquivo é um cinema de montagem. Chris Marker é um diretor cuja obra se caracteriza pela utilização de arquivos e cuja particularidade está na montagem e na forma como articula texto e imagem. Em “O fundo do ar é vermelho”, através dos arquivos, ele retoma os movimentos sociais ao redor do mundo no período de 1967 a 1977, criando, assim, uma perspectiva analítica dos acontecimentos. A montagem reconfigura o sentido das imagens e permite fazer uma reflexão sobre o acontecimento do passado, ela dá a ver uma nova legibilidade (DIDI-HUBERMAN, 2008). As imagens, articuladas, entram em colisão: não se trata de uma simples fusão ou assimilação indistinta. Para Sylvie Lindeperg (2010), há sempre algo que resta do momento da captura na imagem, que diz respeito à tomada; mas, a articulação das imagens, que possibilita conferir a elas um novo sentido, é a retomada. Esse novo sentido surge a partir das formas como esse arquivo é recontextualizado, quando se desenvolve a escritura do filme. No documentário de arquivos, as imagens utilizadas não são produzidas para o filme, porém, se transformam em cinema no momento da montagem. Portanto, nesse tipo de cinema, é possível pensar em outras operações fílmicas a partir da montagem. A noção de mise-en-scène, por exemplo, não envolve apenas as escolhas de composição do plano, mas também aquelas de articulação entre os planos e, assim, acaba por se confundir com a noção de montagem. De acordo com a perspectiva de François Albera, a mise-en-scène não é apenas um modo de ilustrar ou apresentar uma cena, mas é, verdadeiramente, uma escritura. Nesse sentido, Jean-Luc Godard (apud ALBERA, 2000) considerou que montagem e mise-en-scène são procedimentos inseparáveis. Albera diz ainda que Einsenstein, apesar de considerar essencial a montagem, não ignorava a importância de uma cine-escritura. Ele considerava que desde a pré-produção, passando pela mise-en-scène, pelo que chamava de mise-en-cadre (a filmagem) até a montagem como partes de um processo contínuo. Em “O fundo do ar é vermelho”, é possível perceber a aproximação entre mise-en-scène e montagem quando, por exemplo, Marker une as imagens de um soldado americano que comemora o sucesso de um ataque na guerra do Vietnã às dos queimados por Napalm, acentuando o horror da situação. Ou, então, quando associa uma sucessão de imagens que remetem às mãos (que trabalham, que escrevem, que desenham em muros, que pegam em armas), em uma conclusão sobre as mãos frágeis, título da primeira parte do filme: essas imagens são associadas a um argumento do diretor, o que ressalta que, nesse caso, a mise-en-scène se constrói também pela associação entre imagem e texto. Ou, ainda, quando questiona o porque do tremor das imagens e, com arquivos de diferentes naturezas – as imagens tremidas e o áudio dos cinegrafistas que as comentam – constrói uma mise-en-scène particular. Esses e outros momentos do filme nos permitem perceber que se, como afirmou Albera, a mise-en-scène revela a singularidade do trabalho de um diretor, a mise-en-scène de Chris Marker está no gesto de montagem. |
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| Bibliografia | ALBERA, François. Mise-en-scène et rituels sociaux. In: AUMONT, Jacques. La Mise-en-scène. Bruxelas: De Boeck, 2000.
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