ISBN: 978-85-63552-17-4
| Título | Apontamentos sobre fronteiras a partir do filme paraguaio 7 Cajas |
|
| Autor | Alice Fátima Marins |
|
| Resumo Expandido | O projeto do filme 7 cajas, realizado por Juan Carlos Maneglia e Tana Schémbori (2011), conta história que se passa em 2005, quando apareceram os aparelhos celulares equipados com câmera para gravar vídeos. Victor, um jovem carregador de mercadorias, deseja ter um aparelho desses, para realizar filmes e ser transformado em estrela do cinema. Por isso, aceita a tarefa de pegar sete caixas num açougue, cujo conteúdo desconhece, para mantê-las em segurança, até segunda ordem. A partir daí, vários fios de histórias dão andamento à narrativa. Os aparelhos celulares tomam parte ativa no enredo. São também centrais no desfecho da história quando, por caminhos arrevesados, o sonho do jovem é realizado. A despeito de ser considerado um thriller inspirado nas produções hollywoodianas, o filme é portador de uma potência etnográfica: fala do Mercado 4 e suas gentes.
Os diretores brincam com os filmes de ação que servem de inspiração. Espelham-se no outro, mas tratam de seu próprio lugar no mundo. O Mercado 4 é locação estratégica, por propiciar o entrelaçamento de várias camadas narrativas, desde diferentes pontos de vista, a partir dos quais são disparadas linhas de ação que se debatem em fronteiras de diferentes naturezas entrecortadas. Por ali, vende-se de tudo, (des)encontram-se, imigrantes, policiais, crime organizado e pessoas oriundas de diferentes classes sociais. A cartografia do lugar aparenta o caos. Contudo não há dúvidas quanto aos códigos de sobrevivência vigentes. Os diálogos transitam entre o guarani, o espanhol, o yopará e o coreano, numa Torre de Babel da qual tomam parte os processos de globalização econômica, cujas fronteiras nunca coincidem com as sempre provisórias demarcações geopolíticas ou culturais. Após o sucesso do filme, iniciaram-se as negociações para a compra da história por um estúdio norte-americano, com vistas a um remake com selo hollywoodiano. Stam e Shohat (2005) enfatizam a natureza globalizada, multicultural e transnacional do cinema. Com a popularização das tecnologias de produção e edição de imagens fixas e em movimento, sonorizadas ou não, multiplicam-se as experiências em que comunidades periféricas produzem narrativas cujos perfis atendem às diversidades regionais, ausentes das produções dominantes do mercado. No entanto, tais produções circulam e são consumidas também regionalmente, dentro de perímetros demarcados mais ou menos segundo os interesses específicos de seus realizadores. O percurso de 7 cajas parece confirmar a dinâmica analisada por Morin (1999), conquanto constitua uma produção periférica aos grandes estúdios e redes de distribuição, mas desperte o interesse destes em apropriar-se de seu argumento e estratégias narrativas nos processos contínuos de atualização e revitalização de sua mercadoria fílmica. O Mercado 4 está localizado no coração da capital do Paraguai que, por sua vez, está no coração da América do Sul, cercado por países que nem sempre estabeleceram com ele relações fraternas. Ao lado da Bolívia, enfrenta o desafio de manter contato com outros países e mercados sem ter acesso ao mar. Este fato levou à deflagração de uma guerra contra o Paraguai, articulada entre o Brasil, o Uruguai e a Argentina. A Guerra Grande resultou na destruição da economia paraguaia e na dizimação de sua população. Do ponto de vista cultural, a tragédia não foi menor. Por essa razão, a repercussão internacional conseguida pelo filme 7 cajas é portadora também de um sentido de fortalecimento da capacidade para se rever e narrar histórias de si mesmo, com força o suficiente para se fazer ouvir além das demarcações geopolíticas de seu próprio país. São necessários, ainda, muitos embates para se conquistarem saídas para o mar. As guerras também se multiplicaram e têm recrudescido suas batalhas. Mas se há fôlego disposição para produzir e expandir fronteiras nos territórios demarcados pelo mercado cinematográfico, que seja pródiga a parceria entre Juan Carlos Maneglia e Tana Schémbori. |
|
| Bibliografia | 7 Cajas. Direção: Juan Carlos Maneglia e Tana Schémbori. Nacionalidade: Paraguai. Duração: 105 min. Ano: 2012.
|