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  Título
Expectativa e figuração de Pasolini no debate de Dahl com Paulo Emilio
Autor
Pedro Plaza Pinto
Resumo Expandido
O artigo “Desconfiança de Bolognini”, de outubro de 1960, publicado no Suplemento Literáio d´O Estado de São Paulo, traz uma tentativa de Paulo Emilio Salles Gomes de prever a importância que o então escritor e roteirista Pier Paulo Pasolini poderia ter para a próxima geração do cinema italiano. O crítico chega a falar de “o Zavatttini do nosso tempo” para comparar o papel eminente de um e de outro, ambos escritores, para as respectivas gerações. O romance Ragazzi de vita é a referência para Paulo Emilio avaliar o desencontro entre o protesto social de Pasolini e o projeto de “pitoresco delirante” de La Notte Brava, de Bolognini (A longa noite de loucuras, 1959), causando estranheza no crítico a contribuição do primeiro ao roteiro do filme.

O gesto de definir a contribuição do literato ao cinema italiano daquele período e de perceber o hiato entre a obra de Pasolini e o filme de Bolognini nos conduz ao tema da comunicação, da crítica de cinema em diálogo com os seus leitores, sendo alguns deles jovens cineastas e articuladores do movimento do Cinema Novo, mas também com desencontro de expectativas.

No caso específico, perceberemos que, mesmo antes de estrear como cineasta, Pasolini já compõe o quadro que Paulo Emilio procura traçar. Verifica-se, dois anos depois, em longa troca de extensas cartas com Gustavo Dahl, que o apontamento surtira efeito. Dahl remete a conversas com Glauber e testemunha ao amigo e conservador da Cinemateca Brasileira a presença de Pasolini em debate com cineastas russsos em Roma, ocasião na qual o espírito revolucionário e a questão do estalinismo foram discutidas.

A intensa troca de missivas se iniciara no ano anterior, quando Gustavo Dahl é enviado a Roma, de onde escreve, para participar como representante da cinemateca no Congresso de Federação Internacional de Arquivos Fílmicos (FIAF, 1962). A expectativa de Paulo Emilio era contar com Gustavo Dahl para as discussões sobre a realidade das cinematecas e para a sua contribuição ao projeto da Cinemateca Brasileira de ser mediadora nos conflitos que pairavam sobre a entidade.

Dahl não corresponde ao desejo de Paulo Emilio em se tornar mais ativo no mundo dos arquivos fílmicos e da crítica cinematográfica. Por seu lado, discute filmes, demonstra a vontade de articulação dos jovens colegas e de definição paradigmas do cinema novo emergente. O desencontro de propósitos não impede que o diálogo epistolar ocorra com momentos luminares, como quando Dahl justamente aproxima Zavattini e Pasolini no mesmo fluxo discursivo a propósito da Itália estar vivendo a sua Nouvelle Vague.

O objetivo da comunicação é demarcar este diálogo entre mestre e discípulo através do estudo de como a figura de Pasolini passa a ser uma referência estético-ideológica para o Cinema Novo entre os anos de 1959 e 1963. Mesmo antes de comparecer como diretor de filmes, Pasolini é apontado por Paulo Emilio como um dos possíveis responsáveis pelo “fato novo” La Dolce Vita (Fellini, 1960), no qual constara como um dos colaboradores literários. Paulo Emilio antecipa a questão do protesto social no primeiro momento da obra cinematográfica de Pasolini e fecunda o panteão cinemanovista apontando o vínculo profundo entre cinema e literatura desde o exemplo italiano a partir do neorealismo, de Zavattini, e da nova geração do cinema italiano representada por Pasolini.
Bibliografia

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