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  Título
Plasticidades espaciais da imagem: estudos em Abril Despedaçado
Autor
Cyntia Gomes Calhado
Resumo Expandido
Desde os anos 1980, observa-se o crescimento de uma vertente teórica na área do cinema voltada para as relações entre o cinema e outras linguagens e artes. No interior desta pluralidade de posturas está o interesse pelas questões do cinema entrelaçadas às da fotografia, do audiovisual, da pintura, da teoria da arte, assim como da sua história, da sua psicologia, da fenomenologia e das teorias da percepção visual oriundas de diversos campos de reflexão e pesquisa. A presente comunicação se insere nesta vertente teórica que busca pensar o cinema no âmbito da imagem em geral, e das artes visuais em particular, a partir da fenomenologia.

Mais especificamente, nosso interesse recai sobre as plasticidades espaciais da imagem cinematográfica na perspectiva da experiência estética. Utilizaremos como objeto desta análise figural cenas do longa-metragem Abril Despedaçado (2002) de Walter Salles, filme que tem sido pensado primordialmente no campo representacional. Por meio de diálogos com autores como Gilles Deleuze (2007, 2013), Philippe Dubois (2012), Arlindo Machado (1993) e Christine Mello (2008), o presente estudo objetiva verificar de que modo procedimentos audiovisuais associados à perda da tridimensionalidade e à desfiguração produzem acontecimentos de imagem, entre eles, experiências de cores, formas e texturas.

Apesar de Abril Despedaçado permanecer, em grande medida, no campo do figurativo, da representação, podemos notar fissuras em sua narrativa, momentos em que o figural se impõe. Selecionamos três cenas em que esse fenômeno pode ser observado. Na primeira, o figural é obtido por um procedimento de fotografia, a baixa iluminação e profundidade de campo reduzida da cena geram a perda da tridimensionalidade do espaço diegético e a ênfase plástica recai na experiência das formas e cores. Na segunda, trata-se de um travelling que acompanha a corrida de Tonho atrás de um dos filhos da família rival para matá-lo. A sequência, que se passa em uma vegetação árida, apresenta o efeito de desfiguração, trazendo uma textura áspera à imagem. Na terceira, Tonho gira a trapezista Clara em uma corda e, pelo procedimento de aceleração da imagem, temos novo episódio de desfiguração que produz experiências de formas, cores e texturas na imagem.
Bibliografia

BUTCHER, Pedro; MÜLLER, Anna Luiza. Abril Despedaçado: história de um filme. São Paulo: Companhia Das Letras, 2002.

DELEUZE, Gilles. Francis Bacon: Lógica da sensação. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

_________. Conversações. Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Ed. 34, 2013.

DUBOIS, Philippe. Plasticidade e Cinema: A Questão do Figural. In: Stéphane Huchet (org.). Fragmentos de uma teoria da arte. São Paulo: Edusp, 2012.

MACHADO, Arlindo. Anamorfoses cronotópicas ou a quarta dimensão da imagem. In: PARENTE, André (org.). Imagem-máquina: A era das tecnologias do virtual. São Paulo: Ed. 34, 1993.

MELLO, Christine. Cinemáticas. In: Lucia Santaella; Priscila Arantes. (Org.). Estéticas Tecnológicas: novos modos de sentir. São Paulo: Educ, 2008, v. , p. 149-162.

STRECKER, Marcos. Na Estrada: O cinema de Walter Salles. São Paulo: Publifolha, 2010.