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  Título
Central do Brasil: A retomada das coproduções com a França
Autor
Belisa Brião Figueiró
Resumo Expandido
A cooperação entre coprodutores cinematográficos internacionais é uma possibilidade que reúne benefícios financeiros e criativos, diluindo as responsabilidades para cada empresa e potencializando o alcance do filme. Na Europa do pós-guerra, especialmente na França, começou a surgir a percepção de que a coprodução poderia diminuir os riscos e aumentar o acesso aos recursos públicos que passavam a existir por meio dos aportes estatais – além dos mercados que poderiam se abrir para a distribuição e a exibição (GUBACK, 1980). Segundo Laurent Creton (1997), atualmente, é crescente o número não só de filmes em que os franceses investem como coprodutores, mas também a quantidade de parceiros estrangeiros que se associam a produções francesas.



Para ampliar a escala global em uma cultura mundializada, a qual “não implica o aniquilamento das outras manifestações culturais, mas coabita e se alimenta delas” (ORTIZ, 1994), as estratégias geralmente são desenvolvidas em conjunto, desde a elaboração do roteiro até o mapa de distribuição que se almeja alcançar quando a obra estiver pronta. A França, historicamente, é um dos países que mais coproduziu filmes com o Brasil. O primeiro acordo de coprodução foi firmado em 6 fevereiro de 1969 pelas autoridades do Centre National du Cinéma (CNC) e do então Instituto Nacional do Cinema. Entre 1959 a 1994, foram registradas 30 coproduções entre os dois países, sendo 17 delas somente entre o Brasil e a França, sem a participação minoritária de outro país (SILVA, 2014). Os dados mais recentes da Agência Nacional do Cinema mostram que, de 2005 a 2014, foram realizadas 82 coproduções internacionais com 24 países. A França teve alguma participação em 16 delas e aparece como o segundo país que mais coproduziu com o Brasil, ao lado da Argentina, atrás apenas de Portugal (25 filmes).



O levantamento já iniciado por esta pesquisa aponta que “Central do Brasil” é um dos exemplos mais exitosos dos últimos anos. Dirigido por Walter Salles, o filme é uma coprodução do Brasil com a França e teve um excelente desempenho internacional, amparado por prêmios em festivais renomados. O longa-metragem foi o grande vencedor do Festival de Berlim de 1998, com o Urso de Ouro de Melhor Filme (o primeiro a ser concedido a um filme brasileiro) e o Urso de Prata de Melhor Atriz para Fernanda Montenegro. Recebeu o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e ficou entre os finalistas ao Oscar Melhor Filme Estrangeiro de 1999. Lançado em 1998, registrou um total de 1.593.967 ingressos vendidos no Brasil e 889.565 na França. Desde então, nenhum outro filme brasileiro lançado na França, coproduzido ou não com este país, atingiu um público tão significativo, segundo os dados oficiais obtidos junto ao CNC.



A partir de “Central do Brasil”, verificamos que as coproduções da produtora Videofilmes com a França foram mais frequentes nos anos posteriores. “Abril Despedaçado” (2001), de Walter Salles, também foi realizado em parceria com produtoras francesas, assim como “Madame Satã” (2002) e “O Céu de Suely” (2006), ambos dirigidos por Karim Aïnouz, que foi corroteirista de “Abril Despedaçado” e estabeleceu uma relação não apenas com a França, mas também com a Alemanha a partir dessa experiência internacional. Marcos Bernstein foi corroteirista de “Central do Brasil” e o seu primeiro filme como diretor – intitulado “O Outro Lado da Rua” (2004) e produzido pela Pássaro Films – é uma coprodução Brasil-França e tem a atriz Fernanda Montenegro como protagonista.



Esta pesquisa investiga, portanto, como os produtores e diretores brasileiros se reaproximaram da França a partir do período que ficou conhecido como Retomada até o ano de 2014, e de que forma as políticas de internacionalização dos dois países contribuíram para que esta cooperação se tornasse mais contínua e se refletisse em uma circulação um pouco mais eficiente dos filmes brasileiros em todo o mundo por meio dos distribuidores e agentes de vendas franceses.
Bibliografia

CRETON, Laurent. Cinéma et Marché. Paris: Armand Colin, 1997.



FOREST, Claude. Économies contemporaines du cinema en Europe: L’improbable industrie. Paris: CNRS Éditions, 2001.



GUBACK, Thomas H. La industria internacional del cine. Madri: Editorial Fundamentos, 1980. Vol. 2



MATTELART, Armand. Comunicação-Mundo: História das idéias e das estratégias. Petrópolis: Vozes, 1994.



ORTIZ, Renato. Mundialização e Cultura. São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.



ROBERTS, Martin. Baraka: o cinema mundial e a indústria cultural global. In: FRANÇA, Andréa; LOPES, Denilson (orgs.). Cinema, globalização e interculturalidade. Chapecó: Argos, 2010.



SILVA, Hadija Chalupe da. Os filmes realizados em coprodução: Limites e expansões dos acordos transnacionais. 2014. 309 p. Tese (Doutorado em Comunicação) – Instituto de Artes e Comunicação Social, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2014.