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  Título
Boi Neon e os corpos híbridos
Autor
Douglas Deó Ribeiro
Resumo Expandido
Começando pelo título do filme - "Boi Neon" - e até pelo seu cartaz - em que a cara de um boi rebrilha em tons neons -, o último filme de Gabriel Mascaro ("Doméstica", "Um Lugar ao Sol"), evoca, antes mesmo da experiência de assistir ao filme, essa fusão num só ente de elementos originalmente díspares e ontologicamente opostos: a natureza encarnada pelo animal e a artificialidade representada pelas cores neon. A imagem do boi que daí resulta é quase uma anomalia, um casamento que se naturaliza na obra, mas que resta estranho à experiência imediata do espectador-leitor.

Numa das primeiras sequências do filme, o protagonista Iremar (Juliano Cazarré) caminha por um charco ressecado pelo clima sertanejo. Ao fundo, um homem sobre um caminhão joga fragmentos coloridos de tecido que maculam a paisagem árida e natural; pedaços de manequins de plástico também estão espalhados pelo local; Iremar pega partes desses manequins para formar um corpo que usará como modelo para vestir as roupas que confecciona - o fim do plano mostra o personagem pegando uma cabeça de plástico que jaz junto à lama do charco. A sopa primordial representada nesse plano-sequência é a base da imagética híbrida que perpassa o filme - como as ruínas de passado que empurram o presente (BENJAMIN, 2013), os corpos e espaços serão formados por fragmentos de estruturas binárias.

A construção visual e narrativa dos personagens também se faz através da fusão de aparentes opostos - a menina se veste de maneira claramente masculinizada e 'adultizada'' e o peão aparentemente mais velho masturba-se com revistas pornograficas como um adolescente; Iremar tem paixão por criar roupas femininas estilizadas e Galega (Maeve Jinkings) é a caminhoneira (numa inversão de funções a priori femininas e masculinas).

Se por um lado a anatomia (forma) dos corpos unem esses bipolos visuais (tal qual a fusão da cabeça de cavalo com o corpo de mulher nas sequências em que Galega dança para divertir os vaqueiros, ou a égua de luxo com a crina cacheada como os cabelos de uma mulher - sínteses entre humano e animal), num modelo que evoca a ideia do corpo grotesco em oposição ao corpo moderno, individuado e monolítico (LE BRETON, 2003), por outro, sua fisiologia (função) está igualmente marcada por essa incorporação de papéis sociais por certos indivíduos de maneira pouco convencional - como aquelas desempenhadas por Iremar e Galega, citadas acima.

É importante ressaltar que o filme é tributário de certo realismo associado ao cinema brasileiro, vinculado ao imaginário das vaquejadas e do sertão, de matriz verossimilhante (AUMONT et Al., 1995) e que essas sínteses de elementos opostos se processam de maneira completamente pacífica na diegese, sem haver, por parte dos personagens, qualquer percepção de anomalia do universo representado - a essência masculina-feminina da travesti que cuida da égua, a relação quase erótica entre um homem e um cavalo num momento de abstração do filme, a iluminação neon de espaços naturalistas e mesmo a cena de sexo explícito entre Iremar e uma grávida (uma profanação do corpo no estado quase-sagrando da gestação) são elementos em consonância com a ideia de showing do cinema de atrações de Gunning (1990).

Note-se também que a construção desse imaginário híbrido de "Boi Neon" opera a partir de fragmentos caros ao ambiente misógino das vaquejadas e ao ideario do sertão brasileiro: os bipolos masculino-feminino, adulto-infantil, natureza-artificio, homem-animal, nestes universos, possuem fronteiras, em geral, bem delimitadas, com o domínio habitual dos primeiros elementos sobre os segundos de cada par. Mascaro parece trabalhar a penetração de uns nos outros preservando, no entanto, certa sobrevivência visual desses signos (DIDI-HUBERMAN, 2013). A própria ideia de imagem enquanto ser especial (AGAMBEN, 2007), onde uma essência coincide com um dar-se a ver, onde uma representação resulta num universo outro (imaginante e imaginado), encerra essa concepção híbrida de corpo.
Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007.

AUMONT, Jacques et Al. A estética do filme. Campinas: Papirus, 1995.

BENJAMIN, Walter. O anjo da história. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013.

DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem sobrevivente. História da arte é tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.

GUNNING, Tom. The cinema of attractions: Early film, its spectator and the avant-garde. In ELSAESSER, Thomas; BARKER, Adam. Early Cinema. Space, frame, narrative. London: BFI Publishing, 1990.

LE BRETON, Davide. Antropologia do Corpo e modernidade. Petrópolis: Vozes, 2013.