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  Título
O cinema brasileiro e sua recepção no Reino Unido a partir da Retomada
Autor
Alexandre Figueirôa Ferreira
Resumo Expandido
A Retomada do Cinema Brasileiro, a partir de 1994, lançou novos filmes e diretores que desde então têm alcançado repercussão no exterior; premiação em festivais internacionais; atenção da crítica especializada e acadêmica; e exibicão no circuito das salas comerciais. Filmes como Central do Brasil (1997) e Abril Despedaçado (2001), de Walter Salles; Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles; Tropa de Elite (2007), de José Padilha; O Som ao Redor (2013), de Kleber Mendonça Filho, Que Horas Ela Volta? (2015), de Anna Muylaert, entre outros, entraram em cartaz nos cinemas do Reino Unido com repercussão positiva, sendo resenhados pela imprensa e despertando interesse no campo dos estudos cinematográficos das universidades britânicas.

Os diretores Walter Salles e Fernando Meirelles são os nomes mais prestigiados e o filme Cidade de Deus, de Meirelles é a obra de maior destaque entre os críticos ingleses. Ambos, além de dirigirem filmes no Brasil, realizaram trabalhos em Holywood, tiveram indicações ao Oscar e seus filmes estão entre as melhores bilheterias dos filmes latino-americanos no Reino Unido.

No âmbito acadêmico, os primeiros passos da redescoberta do cinema brasileiro no Reino Unido aconteceram em 2000 - com a conferência "Cinema brasileiro: raízes do presente, perspectivas para o futuro", organizada por Lucia Nagib, na University of Oxford, e a mostra "Do Cinema Novo ao Novo Cinema" - e em 2003, com a publicação do livro The New Brazilian Cinema.

Na década de 1980, o cinema brasileiro entrava em pauta nas questões relacionadas ao conceito de Terceiro Cinema a partir do Cinema Novo, como observamos em Questions of Third Cinema (1986), editado por Jim Pines e Paul Willemen. Em meados dos anos 2000, no entanto, a recepção dos novos filmes passou a ser mediada pelo conceito de world cinema, numa abordagem mais atualizada no campo da teoria fílmica.

As leituras dos filmes brasileiros passaram, dessa forma, a ver não apenas as relações entre o cultural e o político, baseadas em modelos diacrônicos e binários, para abrirem-se a uma perspectiva de compreensão que inclui uma visão policêntrica dessas obras, como também uma percepção do diálogo que elas estabelecem entre aspectos sociais da vida brasileira e o mundo globalizado.

Nossa pesquisa analisou artigos publicados em jornais como o The Guardian e The Independent e a revista especializada Sight & Sound e mostra que, no Reino Unido, o interesse pelos filmes brasileiros produzidos a partir da retomada deve-se, sobretudo, ao fato deles abordarem temas da realidade social e cultural do país numa perspectiva contemporânea da produção audiovisual com narrativas que buscam articular localismo e cosmopolitismo, como preconiza os estudos em torno do conceito de world cinema.

A partir da retomada, a questão da identidade nacional continuou a ser uma força vital nos filmes, como assinala Ismail Xavier, mas há uma significativa diferença. A teleologia social cedeu espaço para a psicologia individual, a opressão do Estado foi substituída pela do crime organizado e o romantismo revolucionário deu lugar para a cultura pop (NAGIB, 2003, p.20). E este novo olhar na representação cinematográfica da vida urbana brasileira não passou despercebido dos críticos e acadêmicos ingleses.

Lisa Shaw e Stephanie Dennison observam a existência, nesses filmes, de um novo tipo de realismo que não vê conflito entre Hollywood, MTV, trabalho de câmera estilizado, trilhas sonoras pop e a tentativa de denunciar a pobreza, a injustiça e a exclusão social (DENNISON e SHAW, 2007, p.114). Ou seja, um cinema eclético, marcado pelo hibridismo e que aborda o local, buscando se integrar nas correntes universais da arte. Já Paul Julian Smith, colaborador da Sight & Sound, tem discutido a questão do transnacionalismo, defendendo uma maior flexibilidade de entendimento do que constitui o cinema latino-americano, no qual, para ele, o cinema brasileiro, está inserido (NAGIB, PERRIAM E DUDRAH, 2012, p.73).
Bibliografia

CHANAN, Michel. The changing geography of Third Cinema in DENNISON, Stephanie (org.). World Cinema: as novas cartografias do cinema mundial. Campinas: Papirus, 2013.

DENNISON, Stephanie; SHAW, Lisa. Brazilian National Cinema. London: Routledge, 2007.

FIGUEIRÔA, Alexandre. Cinema Novo, a onda do jovem cinema e sua recepção na França. Campinas: Papirus, 2004.

MATHEOU, Demetrius. The Faber Books of New South American Cinema. London: Faber & Faber, 2010.

NAGIB, Lúcia; PERRIAN, Chris; DUDRAH, Rajinder (orgs.). Theorizing World Cinema. London: I.B.Tauris, 2012.

NAGIB, Lucia (org.). The New Brazilian Cinema. London: I.B.Tauris, 2003.

PINAZZA, Natalia e BAYMAN, Louis (eds.). Directory of World Cinema- Brazil. London: Intellect Books, 2013.

PINES, Jim; WILLEMEN, Paul (orgs.). Questions of Third Cinema. London: BFI, 1989.

SMITH, Paul Julian. All Points South; in Sight & Sound. London: September, 2010.

XAVIER, Ismail. Angels with Dirty Faces; in Sight & Sound. London: January, 2003.