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  Título
Uma análise do tempo na narrativa do romance e do filme São Bernardo.
Autor
Carlos Eduardo Japiassú de Queiroz
Resumo Expandido
Quando do lançamento do filme São Bernardo, em 1972, dois projetos modernos se entrecruzaram; ou, dada à forma final tomada pela peça cinematográfica, seria mais preciso dizer, imbricaram-se. Quanto ao primeiro, correspondia à obra literária do escritor alagoano Graciliano Ramos; quanto ao segundo, à obra fílmica do diretor carioca Leon Hirszman; e ao encontro dos dois, quando da adaptação homônima para o cinema do romance São Bernardo. É como se Hirszman, vislumbrasse no romance de G. Ramos, uma solução de continuidade à opção estético/ideológica que fundou o movimento cinemanovista brasileiro.

Neste âmbito, esse trabalho pretende realizar uma análise comparativa do romance e do filme acima referidos. No entanto, pensamos ser necessário para depuração do nosso objeto, um recorte temático. A escolha recaiu num elemento de fundamental importância para a interpretação do romance, a saber, o uso e a concepção do Tempo enquanto construção de sentido para a história e a estrutura narrativa. Tratamento este que, na passagem para o cinema, fará com que o “fenômeno do tempo”, agora sob os ditames do signo imagético, assuma uma função estética que atribuirá ao filme de Hirszman um caráter plenamente autoral. Não se trata apenas de verificar como o tempo é disposto na narrativa ficcional do romance São Bernardo, mas como o autor concebe as dimensões temporais como cortes anacrônicos de significação. Ou seja, os blocos de capítulos que situam a história no passado, no presente e no futuro, sem uma obrigatoriedade diacrônica, funcionam de modo a se atribuírem significados não apenas perspectivos como retrospectivos. Numa espécie de “convivência” entre os modos temporais que propiciará o próprio sentido compreensivo da narrativa; como também da visão de mundo subjacente a ela. Visão de mundo que se perfaz pela marcada consciência do estilo literário de Graciliano Ramos. Marca estilística que, a cada momento, transborda um anseio ético, compartilhado com o leitor e/ou intérprete pela força da concepção de seu projeto estético.

No tocante à transposição realizada para o cinema, observaríamos que ela obteve uma concepção estética de cunho assaz autoral por parte do diretor L. Hirszman; concepção esta que iria inserir-se no âmbito do que se postulou como segundo momento do Cinema Novo Brasileiro – originado após o AI-5, o qual recorreria a adaptações de obras clássicas da literatura nacional, repensando-as de forma a criar novos caminhos de afirmação de um projeto de identidade cultural brasileira.

Neste sentido, impor-se-á como hipótese teórica do artigo o desenvolvimento da seguinte reflexão: se a subserviência da adaptação cinematográfica em relação à estrutura do romance atenderia aos anseios estético-formais do diretor? E, continuando a indagação, como a questão do tempo por nós apontada em relação ao romance estaria coadunada à concepção estética do filme de L. Hirszman?

Para concluir, gostaríamos de observar que, bem mais enfaticamente que as vanguardas cinematográficas européias do pós-guerra, o Cinema Novo Brasileiro, assim como o de outras cinematografias latino-americanas marcantes daquele período histórico, só poderia afirmar um projeto estético se vinculado a um claro sentido político de emancipação social. Sendo, pois, um dos nomes que mais encarnou este ímpeto de transformação social, é que supomos a escolha feita por Leon Hirszman pela adaptação do romance São Bernardo de Graciliano Ramos.
Bibliografia

Obras de Graciliano Ramos:



______. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2005.



______. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 1991.





Filmes de Leon Hirszman:



A FALECIDA. Direção de: Leon Hirszman. Roteiro: Leon Hirszman; Eduardo Coutinho. Rio de Janeiro: Videofilmes, 1965.



SÃO Bernardo. Direção e roteiro: Leon Hirszman. Rio de Janeiro: 1972.



Geral:



ARISTÓTELES. Arte poética. São Paulo: Martin Claret, 2007.



BAZIN, André. O que é o cinema?. São Paulo: Cosac Naify, 2014.



_____. Orson Welles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.



DELEUZE, Gilles. A imagem-movimento: cinema 1. Lisboa: Assírio e Alvim, 2004.



_____. A imagem-tempo: cinema 2. São Paulo: Brasiliense, 2005.



_____. Bergsonismo. São Paulo: Editora 34, 1999.



TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o tempo. São Paulo: Martins Fontes, 1990.



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