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  Título
Edward Hopper e o cinema
Autor
Marcos Fabris
Resumo Expandido
O pintor norte-americano Edward Hopper (1882 – 1967) adorava cinema. Frequentava com assiduidade as salas de Nova York, local onde passou grande parte da vida, e não tardou a retratá-las: The Balcony, também conhecido por The Movies (1928), foi uma de suas primeiras e mais diretas representações do tipo. Aqui, duas figuras isoladas no balcão superior de uma sala de exibição fixam o olhar numa suposta tela que nós, observadores da obra, não vemos. Mas notemos que mesmo quando não representou diretamente as salas de cinema, sua obra aludiu à estética cinematográfica – as configurações formais em Night shadows (1921), por exemplo, aludem a um sketch de storyboard, que de cunho marcadamente expressionista parece de fato extraído de uma película de Fritz Lang. Esta obra (e não apenas ela!) explicita que não estamos diante de um artista que se restringiu a retratar o cinema meramente no nível do assunto. Hopper incorporou, na fatura formal da obra de arte, procedimentos caros à sétima arte.



Impactado profundamente pela produção hollywoodiana dos anos trinta e quarenta do século XX, suas pinturas e desenhos serão, nos termos acima descritos, extremamente “cinéticos”. Ao explorar de modo dialético as capacidades cinematográficas de representar tanto o estático como o dinâmico, o pintor articulará uma poderosa reflexão sobre a experiência moderna nas grandes metrópoles, “espionando” a experiência social de seus habitantes em “stills” que não dissimulam seu parentesco com a estética do noir (pensemos, por exemplo, nos paralelos visuais entre os modos de representação da luz em Hopper e a fotografia de Força do mal, filme de 1948 do diretor Abraham Polonsky, ou ainda no Hitchcock de Psicose, de 1960, mais especificamente nas simetrias iconográficas entre a casa de estilo neogótico presente no filme e a pintura House by the railroad, executada por Hopper em 1925). Nesses termos, o voyeurismo que vivencia o frequentador das salas de cinema (e o próprio Hopper, como um deles!) será pictoricamente articulado pelo artista no intuito de aprofundar suas investigações sobre a experiência societária urbana norte-americana sob a égide da modernidade.



Se Hopper adorava o cinema este, por sua vez, lhe retribui em dobro até hoje sua adoração. Polonsky e Hitchcock não são os únicos que fizeram uso produtivo do que logo se convencionaria chamar de “estética Hopper”, uma poderosa e persistente matriz para as mais diversas gerações de diretores: o George Stevens de Assim caminha a humanidade (1956), o Terrence Malick de Cinzas do paraíso (1978), o Wim Wenders de O fim da violência (1997), O Robert Altman de A última noite (2006), o Todd Haynes de Carol (2016)... (vale lembrar que Haynes assinou a curadoria de uma mostra de cinema na Tate Modern de Londres sobre as relações entre Edward Hopper e o cinema por ocasião da exposição dedicada ao artista no museu em 2004).



Nos termos acima descritos, esta comunicação pretende expandir a identificação de momentos cruciais na produção artística de Hopper e seus paralelos com o cinema para, em seguida, verificar como este dialoga com a arte do pintor norte-americano, referindo-se a ela para potencializar suas capacidades expressivas no âmbito da produção cinematográfica. Pretende-se considerar com particular atenção o filme Carol, de Todd Haynes (2016).
Bibliografia

ALBERA, F. Eisenstein e o construtivismo russo. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.



BENJAMIN, W. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1994.



HEGEL, G. W. F. Cursos de estética. São Paulo: EDUSP, 1999.



HOPPER. Paris: Réunion des musées nationaux – Grand Palais, 2012. 367 p. Catálogo de exposição, 10 out. 2012 – 28 jan. 2013, Grand Palais, Paris.



LAVIN, M. [et alii]. Montage and Modern Life 1919 – 1942. Boston: The MIT Press, Cambridge, Massachusetts, 1992.