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  Título
Ecos musicais no começo e no fim do filme: 03 casos do Cinema Moderno
Autor
Luíza Beatriz Amorim Melo Alvim
Resumo Expandido
O começo e o fim são muito importantes num filme: se o começo traz objetivos como conquistar o espectador e ancorá-lo na história/proposta do filme, o final dá sentido de obra acabada. Mesmo em finais ambíguos ou abertos, o filme termina.

Dentro dessa perspectiva e levando em conta as suas características de alteridade e intermedialidade pela presença da palavra escrita (STRAW, 2010), os créditos representam momentos especiais. Considerando o filme como um “texto”, seriam, partindo da conceituação de Genette (1987), um “paratexto” (elementos no limiar do texto) e promovem para o espectador uma transição entre o mundo extratextual da “vida real” para o mundo textual do filme (STRAW, 2010).

Uma convenção bastante respeitada nos cinemas clássico e moderno foi a presença da música nos créditos, que Gorbman (1987) considerou como um código cinemático, próprio do cinema Até então, os créditos iniciais geralmente continham todas as informações do filme e os créditos finais muitas vezes só tinham a palavra “fim”, ao contrário do que acontece na maioria dos filmes contemporâneos.

Em relação a outros códigos e modos de utilização da música no cinema, Gorbman (1987) observa que um princípio importante é o da unidade, representado, no cinema clássico, pelo leitmotiv. Porém, mesmo com o desejo de diretores do cinema moderno de questionarem as convenções do cinema clássico, a música permanece um elemento que traz unidade ao filme, por exemplo, quando utilizada no início e no final deles, em especial, nos créditos iniciais e finais. Analisaremos esse tropos da repetição da musica no começo e no fim do filme em três casos: "Mouchette" (Robert Bresson, 1967), "A besta deve morrer" ("Que la bête meure", Claude Chabrol, 1969), "Terra em transe" (Glauber Rocha, 1967).

Em "Mouchette", Bresson - diretor bastante conhecido pela parcimônia com que utilizou a música - aproveita os momentos altamente codificados dos créditos para incluir música extradiegética no filme, que, exceto aí, só tem música diegética. A música dos créditos iniciais e do final do filme é representada por duas partes da mesma peça, as Vésperas de Monteverdi. A letra da música e o conteúdo do último plano do filme (o lago em que Mouchette se afoga, seguindo com a tela preta) funcionam como uma resposta à pergunta do personagem da mãe da protagonista (“O que será deles sem mim?”) à qual se seguiram os créditos iniciais (ALVIM, 2013).

Em "Terra em transe", embora os créditos estejam logo em seu início, poderíamos considerar o filme em si recomeçando a partir do momento em que o protagonista Paulo Martins dá início ao seu longo flashback, marcado pelo Prelúdio das Bachianas n.3 de Villa-Lobos, do qual só voltará ao final do filme, quando ouvimos a mesma música, junto com sons de tiros e sirenes, tudo continuando durante os créditos finais. Nesse “envelope” do flashback de Paulo, há um processo de repetição e variação dos planos imagéticos e do som (XAVIER, 1993; ALVIM, 2015).

"A besta deve morrer" conta com música original de Pierre Jansen, porém um dos Quatro Cantos Sérios de Brahms é ouvido nas primeiras imagens, num prólogo que antecede os créditos iniciais (que ocorrem sem música). Neste prólogo, a música vem do rádio de um carro e é constantemente interrompida em montagem alternada com planos de um garoto até o atropelamento da criança, fato que desencadeia toda a vingança do pai. No final bastante ambíguo, a voz over deste personagem evoca a música de Brahms, que passamos a ouvir extradiegética até o princípio dos créditos finais. Estes, como os iniciais, ocorrem sem música.

A evocação da mesma música do início pelo personagem, a pergunta da mãe de Mouchette e a ação da menina ao final, assim como a repetição variada de planos ao som do mesmo prelúdio de Villa-Lobos em "Terra em transe" proporcionam reconsiderações do filme como um todo pela repetição da mesma música do começo.
Bibliografia

ALVIM, L. Robert Bresson e a música. Tese (Doutorado em Comunicação) – UFRJ, 2013.

_____. A música de Villa-Lobos nos filmes de Glauber Rocha dos anos 60: alegoria da pátria e retalho de colcha tropicalista. Significação, v.42, n.44, 2015.

BRAUCOURT, G. Claude Chabrol, Que la bête meure: comment écraser un cafard. Les Lettres Françaises, 3 sept. 1969.

CHION, M. L´écrit au cinéma. Paris: Armand Colin, 2013.

GENETTE, G. Seuils. Paris: Seuil, 1987.

GORBMAN, C. Unheard melodies: Narrative film music. London: BFI, 1987.

PHILIPPE, C.-J. Que la bête meure…ainsi que l´homme. Télérama, 31 août 1969.

STRAW, W. Letters of introduction: film credits and cityscapes. Design and culture, v.2, n.2, July 2010.

______. Palavras, canções e carros: músicas de abertura e as sequências de créditos nos filmes. In: SÁ, S.; COSTA, F. (org.). Som+Imagem. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012.

XAVIER, I. Alegorias do subdesenvolvimento: Cinema Novo, Tropicalismo, Cinema Marginal. São Paulo:Brasiliense, 1993.