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  Título
Terror de autor: cinema de gênero e metalinguagem no longa "O Barão"
Autor
Tiago José Lemos Monteiro
Resumo Expandido
Este artigo insere-se no contexto de uma investigação, iniciada em 2013, acerca das condições de ocorrência de um cinema de horror em Portugal. O pano de fundo de tais questionamentos é o discurso, algo corrente na imprensa lusa e também nos circuitos acadêmicos voltados aos estudos fílmicos, segundo o qual Portugal seria um país sem uma tradição expressiva em termos de narrativas cinematográficas de horror – o que não deixa de causar alguma surpresa, sobretudo se levarmos em consideração a diversidade de potências horroríficas (Espanha, Inglaterra, Itália, França) que o circundam, e o fato de Portugal sediar dois importantes festivais no âmbito do cinema de terror/fantástico: o bissexto Fantasporto e o ascendente MOTELx.

Neste paper, debruço-me sobre um exemplar sui generis no panorama da produção lusa contemporânea, posto que ocupa uma espécie de lugar intermediário entre o desejo de evocar um imaginário associado ao cinema B/de gênero, tradicionalmente pouco exercitado em Portugal, e a ruptura e o tensionamento sistemáticos destes mesmos códigos, que o aproximariam daquilo que a historiografia mais ortodoxa e mesmo o senso comum tendem a entender por cinema português de autor. Trata-se do longa-metragem O Barão, dirigido por Edgar Pêra em 2011, a partir do conto homônimo de António José Branquinho da Fonseca (1905-1974), expoente do Modernismo Luso, sobre um aristocrata vampiresco que tiraniza uma aldeia do interior.

Ativo desde a segunda metade dos anos 1980, e portanto profundamente consciente das fases atravessadas pelo cinema luso no decurso das últimas décadas, os primeiros trabalhos de Edgar Pêra, que incluem videoclipes, instalações, performances e curtas-metragens, revelam-se profundamente influenciados pela estética fragmentária de colagem punk. Em função deste "currículo", os modos pelos quais Edgar Pêra se apropria de alguns códigos do cinema de gênero, mais especificamente do horror série B, em seu filme O Barão tendem mais à desconstrução crítica do que à subserviência. Interessa ao cineasta menos realizar um filme de terror convencional e mais dialogar com o imaginário deste tipo de narrativa, sob a chave da alegoria política e da farsa metalinguística. A despeito da presença inconteste de elementos cênicos e narrativos que nos remetem à gramática tradicional do filme de horror - o vilão de aspecto vampiresco, a criada enigmática, o castelo soturno, a aldeia de vielas estreitas e enevoadas - Edgar Pêra não se apropria deste imaginário com a finalidade de provocar medo ou aversão no espectador, mas sim uma espécie de desconforto cognitivo, acentuado pela profusão de fusões, jump cuts e oscilações de ritmo. Momentos tipicamente horroríficos - a sequência de abertura, as aparições do homem-javali em meio à floresta, avançando de forma ameaçadora em direção à câmera, os rompantes de fúria do Barão - são a todo momento fraturados pela irrupção de sequências concebidas para arremessar o espectador para fora do filme, quando não pelo seu caráter insólito.

Embora inúmeras marcas estilísticas e narrativas associadas ao universo do cinema de autor estejam indiscutivelmente presentes em O Barão, é possível identificar, nos modos como o filme foi lançado e circulou comercialmente em Portugal, um desejo em reconhecê-lo e vinculá-lo ao universo do cinema de gênero, talvez como forma de atribuir-lhe alguma transversalidade em termos de endereçamento. Tentativas análogas de transbordamento no âmbito do terror ora registrarão o desprezo da crítica e a indiferença do público (caso de Eclipse em Portugal, de 2014); ora terão a recepção favorável da crítica e do público condicionadas ao deslocamento do filme para além do horror (caso de Coisa ruim, de 2006); ora, por fim, partirão de um reconhecimento da obra enquanto filme de autor para que seu diálogo com o imaginário de gênero seja validado, caso do objeto da reflexão que aqui se encerra.
Bibliografia

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