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  Título
A escuta e o sensível: a crônica de “Happy Birthday to John".
Autor
Laís Ferreira Oliveira
Resumo Expandido
Como é possível filmar a própria música? As formas como som, imagem e palavra apresentam determinado conceito afetam de maneiras distintas o espectador a qual se direcionam. Enquanto a visão se vincula a um sentido mais sensato e racional, a escuta se constitui como sentido sensível. Em "Happy Birthday to John" (1972), Jonas Mekas apresenta pequenos fragmentos do cotidiano de John Lennon, a convivência do músico com outros artistas e inserções de apresentações do cantor. Marcado por planos fugidios e pela fusão de imagens distintas, Mekas estabelece uma maneira particular de se relacionar com a memória e a vida do músico, em que não temos uma organização cronológica ou uma narrativa que expliquem os acontecimentos. Recorrendo a Jean-Luc Nancy(2014) em "À escuta", é possível dizer que o curta-metragem “faz ressoar entre si os registros sensíveis e o registro inteligível” (NANCY, 2014, p.42). Segundo o filósofo, “talvez seja preciso que o sentido não se contente com fazer sentido (ou com ser logos), mas além disso ressoe” (NANCY, 2014, p.17). Nesse filme, temos acesso a uma celebração e homenagem à vida do músico que ressoam no espectador tomado como sujeito da escuta e da experiência de situações públicas e privadas que resgatam a história de uma época e revelam situações inusitadas. Mekas se comporta como um cronista desse período e trabalha com escolhas estéticas em que reverberam diálogos com a música, as artes visuais e a literatura. Na obra, John Lennon aparece como um sujeito ordinário, cercado por amizades de personalidades como Allen Ginsberg, Miles Davis e Andy Warhol. A partir do resgate desse convívio e desse espaço-tempo, Mekas opera escolhas de montagem que, retomando as discussões de Adams Sitney(2002) em "Visionary Film", aproximá-lo-iam de um cinema lírico. Considerando esses elementos, este trabalho analisa "Happy Birthday to John" investigando como o filme tensiona os sentidos sensível e sensato ao registrar a vida do músico. Propomos, também, uma discussão atenta sobre a montagem do filme, debruçando-nos sobre o esforço nela presente de representar, pela imagem, trocas sensíveis entre os artistas da época.
Bibliografia

CHION, Michel. A audiovisão: som e imagem no cinema. Lisboa: Texto & Grafia, 2011.

MEKAS, Jonas. Movie Journal: The Rise of a New American Cinema. 1959–1971. New York: Macmillian, 1972.

MOURÃO, Patrícia. O filme diário. In: MOURÃO, P. (org.). Jonas Mekas. São Paulo: CCBB; Pró-reitoria de Cultura e Extensão Universitária – USP, 2013.

______. "A 'ordem' do cinema – Jonas Mekas underground". In: Catálogo forumdoc.bh.2013. Belo Horizonte: Associação Filmes de Quintal, 2013a.

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NANCY, Jean-Luc. À escuta. Tradução de Fernanda Bernardo. Belo Horizonte. Edições Chão da Feira, 2014.

SITNEY, P. Adams (org.). The Film Culture Reader. New York: Cooper Square Press, 2000.

______. Visionary Film: The American Avant-Garde 1943-2000. Oxford: Oxford University Press, 2002.