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  Título
Representações de violência na minissérie de guerra Band of Brothers
Autor
Ketlyn Mara Rosa
Resumo Expandido
A minissérie Band of Brothers (2001), produzida por Steven Spielberg e Tom Hanks, oferece um retrato das atrocidades sofridas pelos soldados americanos durante a Segunda Guerra Mundial no campo de batalha através da representação da violência de forma gráfica. A minissérie expõe não apenas os ferimentos, falta de apoio médico, e mutilações dos soldados mas também os efeitos psicológicos de uma guerra que levou pessoas à exaustão mental e emocional. A proposta desta comunicação é de trazer uma discussão sobre a minissérie e suas representações de violência explícita, e como os retratos gráficos de mutilações, machucados e mortes adicionam camadas de significação na narrativa através da exploração dos temas de companheirismo, sacrifício e trauma. Por meio da análise cinematográfica de uma cena específica do episódio sete será possível perceber o desenrolamento dos temas através da transformação do retrato grotesco da violência em um significado mais complexo e simbólico que vai além da estrutura física do corpo.

O alinhamento das sequências violentas no esquema geral da narrativa dos dez episódios de Band of Brothers é um ponto significante que leva ao melhor entendimento do impacto da violência na minissérie. Cada cena violenta é precedida e sucedida por outras cenas que ajudam na ênfase do sentimento de perda e ruptura causado pela guerra. Em Story and Discourse, Seymour Chatman explica a noção da lógica conectiva de eventos em seu entendimento da hierarquia narrativa. Ele introduz os conceitos de "kernels" como os principais eventos da narrativa que avançam a estória ao fazer questionamentos e providenciar respostas, e "satellites" como eventos menores que completam o "kernel" ao preencher os espaços vazios da narrativa em volta dos grandes eventos. Estes conceitos serão de grande utilidade na análise da estrutura de cenas de Band of Brothers e os significados que as diferentes cenas transparecem, pois momentos anteriores aos eventos violentos caracterizam a construção de laços de amizade e companheirismo que irão magnificar o sentimento de perda e destruição. As cenas posteriores ao evento violento também terão sua importância pois a demonstração de desolação e dor será a prova do estrago causado pelas experiências brutais de guerra.

Em termos de cinematografia, o impacto da violência nas cenas de Band of Brothers é realizado através do uso de planos de reação que capturam a resposta facial dos soldados. O impacto da imagem gráfica de violência no corpo dos soldados pode ser aumentada através da conexão da circunstância violenta com a reação facial de dor física e emocional do soldado que sofreu o ferimento, ou em alguns casos, a resposta facial dos soldados em sua volta. Hermann Kappelhoff discute a idéia da "reação de choque" ("shell-shocked face") do soldado quando deparado com uma explosão ou situação devastadora que pode vir a significar uma imagem de sacrifício através da agonia do soldado, ou por vezes o retrato do puro sofrimento físico e da aniquilação da vida humana.

Os corpos dos soldados sofrem um intenso impacto violento e podem ser categorizados no que Sarah Cole chama de violência do desencantamento e encantamento. A primeira refere-se ao corpo machucado que remete à realidade e pavor da guerra com imagens de mutilações e machucados. No caso de Band of Brothers, as inúmeras cenas em que a fragilidade dos corpos dos soldados é colocada em foco podem ser vistas como uma representação do lado grotesco da guerra, evitando a narrativa de honra e vitória. A noção de encantamento da violência está relacionada com momentos que buscam transformar a violação do corpo em algo positivo e coletivo. São nestes momentos da minissérie que o desenvolvimento de temas como companheirismo e sacrifício acontecem, focando no sentido mais complexo da violência, no poder da colaboração e na fragilidade das emoções humanas.
Bibliografia

BAND OF BROTHERS. Produção de Steven Spielberg e Tom Hanks. Estados Unidos: Home Box Office, 2001. 5 DVDs (12h40min).



BURGOYNE, Robert. "Embodiment in the war film: Paradise Now and The Hurt Locker." Journal of War & Culture Studies, Vol. 5, No. 1 (2012), p. 7-19.



CHATMAN, Seymour. Story and Discourse: Narrative Structure in Fiction and Film. Londres: Cornell University Press. 1980.



COLE, Sarah. At the Violet Hour: Modernism and Violence in England and Ireland. Oxford: Oxford University Press, 2012.



KAPPELHOFF, Hermann. For Love of Country: World War II in Hollywood Cinema at the Turn of the Century. 2011. Manuscrito não publicado.



NAGIB, Lúcia. "Oshima, Corporeal Realism and the Eroticized Apparatus". Theorizing World Cinema. Eds. Lúcia Nagib, Chris Perriam e Rajinder Dudrah. Londres, Nova Iorque: I. B. Tauris, 2012, p. 161-181.