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  Título
Epistolaridade audiovisual em I for India: uma análise etnobiográfica
Autor
Sandra Straccialano Coelho
Resumo Expandido
Inserida no âmbito de uma pesquisa pós-doutoral que tem como objetivo central cartografar e desenvolver uma perspectiva de análise etnobiográfica (GONÇALVES, 2012) a respeito da produção documental em primeira pessoa realizada a partir dos anos de 1980 na qual têm sido encenadas diferentes experiências migratórias, a presente comunicação se dedica, especificamente, a uma análise de "I for India" (2005), primeiro longa documentário de Sandhya Sury.

A recorrência atual de filmes nos quais cineastas tentam (re)construir em sons e imagens uma memória familiar marcada pela migração, inscrevendo-se, assim, enquanto personagens de narrativas caracterizadas pelo deslocamento, sugere a vitalidade com que a análise de tais filmes pode contribuir não apenas no horizonte dos estudos cinematográficos, como para a pesquisa sobre as representações dos fenômenos migratórios – nesse escopo pode figurar, por exemplo, grande parte da obra de Jonas Mekas, precursor dessa vertente, assim como documentários mais recentes, tais como "Nobody's business" (1996) de Alain Berliner, "Um passaporte húngaro" (1997) de Sandra Kogut, "Mémoires d'immigrés: L'héritage maghrébin" (1997) de Yamina Benguigui, "The Flat" (2011) de Arnon Goldfinger, "Mare mater" (2013) de Patrick Zachmann, dentre outros.

Frente a esse objeto instigante, se julga especialmente interessante a adoção da abordagem etnobiográfica como aporte teórico-metodológico que procura “dar conta da intrincada relação entre indivíduo, sujeito e cultura” por meio da investigação das estratégias textuais e performáticas que são colocadas em ação pelo “eu” e que evidenciam sua “função poética de dar forma ao 'real'” (GONÇALVES, MARQUES e CARDOSO, 2012, p. 9-10). Assim, do vislumbramento dessa perspectiva como possibilidade de articular as ferramentas da análise fílmica com a discussão necessariamente interdisciplinar sobre a representação dos movimentos migratórios no domínio audiovisual, se acredita na possibilidade de avançar na construção de conhecimentos sobre um objeto que se crê ainda pouco explorado.

No escopo do corpus de análise que foi levantado até o momento no interior dessa pesquisa, acredita-se que "I for India" se apresenta como um objeto privilegiado para o desenvolvimento de tal análise. Nele, a diretora, filha de um médico indiano que se estabeleceu na Inglaterra em meados dos anos de 1960, irá construir um relato que é ao mesmo tempo íntimo e universal da experiência migratória a partir, principalmente, dos arquivos familiares de uma prática epistolar audiovisual que foi estabelecida entre seu pai e os familiares que permaneceram na Índia ao longo de décadas. Da análise das particularidades desse dispositivo central utilizado pela diretora, assim como das principais estratégias colocadas em ação por ela na articulação dos sons e imagens desse “diário” migratório, se tem como objetivo, para os fins da comunicação aqui proposta, depreender a construção audiovisual das diferentes dinâmicas de alteridade em jogo nesse filme.
Bibliografia

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