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  Título
Paisagens e Passagens Transcineclípicas em Mommy, de Xavier Dolan
Autor
Rodrigo Oliva
Resumo Expandido
O presente estudo discute conexões da linguagem do videoclipe em filmes cinematográficos. Aponta-se que esta aproximação se estabelece a partir da análise de blocos audiovisuais, sistematizados por meio do uso de canções que estabelecem relações com os componentes visuais da imagem.

Apresenta-se o conceito de transcineclipe para compreender como se estabelece o trânsito entre a linguagem do videoclipe em filmes. Desdobra-se o conceito em dois subconceitos: o primeiro, denominado de paisagem transcineclípica, é pensado a partir do caráter imagético das representações fílmicas. Os processos de articulação e mixagem de imagens como as incrustações, chroma-keys e justaposição de imagens são característicos, pois aproximam o fílmico de uma natureza mais videográfica. Além disso, caracterizam as paisagens transcineclíplicas: imagens anamórficas, descontextualizadas, bizarras, que provocam deslocamentos narrativos e criam marcações surrealistas.

As passagens transcineclípicas estabelecem relações a partir do processo de articulação da montagem. Os componentes que identificam a linguagem do videoclipe podem ser verificados em filmes, por meio de construções visuais e sonoras articuladas, que criam ritmos bem evidentes. Essas armações da linguagem, inseridas à diegese, são verificadas a partir de recursos que fazem com que o ritmo sonoro da canção estabeleça uma articulação direta com o ritmo da montagem dos enquadramentos. Percebe-se que a pontuação de uma poética videoclípica integra-se ao sistema de articulação das cenas e desenvolve rupturas e suturas no tempo e espaço narrativo fílmico.

O objeto da análise é o filme Mommy (2014) do cineasta canadense Xavier Dolan. Nota-se que a utilização de canções do universo pop é recorrente na cinematografia do diretor. Em Mommy, as músicas possuem um papel de destaque e são apresentadas de maneiras diferentes, quando associadas à parte imagética do filme. Como exemplo, nota-se que as músicas são inseridas de forma poética para performances dos personagens, misturando-se as categorias de diegese e extra-diegese. Neste momento, as definições de Michel Chion (2008) sobre os aspectos sonoros fílmicos serão abordados, já que se trata de estudos que permitem a compreensão de como se estabelecem relações sonoro imagéticas.

O aporte teórico da análise se atém ao entendimento de questões narrativas que serão problematizadas a partir de David Bordwell (2005). Apresentam-se relações da narrativa no encadeamento das canções de natureza pop, cujos pontos teóricos dialogam com os estudos sobre o videoclipe de Carol Vernallis (2004) e Thiago Soares (2013). Também são abordados pensamentos clássicos que debatem questões do movimento rítmico das imagens e dos sons em Serguei Eisenstein e Jean Epstein.

Portanto, este estudo enfatiza as passagens e paisagens transcineclipicas, para uma análise do filme Mommy, tecendo um diálogo com os componentes que estruturam a linguagem do cinema e do videoclipe, apontando para caracterizações que evocam um estilo de representação, na forma como o diretor Xavier Dolan monta as articulações das canções em seus filmes.
Bibliografia

BORDWELL, David. Sobre a história do estilo cinematográfico. Campinas: Editora UniCamp, 2013.

______. O cinema clássico hollywoodiano: normas e princípios narrativos. In: RAMOS, Fernão Pessoa. Teoria contemporânea do cinema (vol. II). São Paulo: Editora Senac, 2005.

CHION, Michel. A Audiovisão: som e imagem no cinema. Lisboa: Edições Texto e Grafia, 2008.

EISENSTEIN, Sergei. O sentido do filme. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

___. A forma do filme. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

EPSTEIN, Jean. A inteligência de uma máquina. In: XAVIER, Ismail (Org). A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Graal, 1983.

SOARES, Thiago. A estética do videoclipe. João Pessoa: Editora da UFOB, 2013.

VERNALLIS, Carol. Experiencing music video: aesthetics and cultural context. New York: Columbia University Press, 2004.