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  Título
Depois da Chuva e Califórnia: Visões dos Anos 1980
Autor
Fabiano Grendene de Souza
Resumo Expandido
Depois da Chuva Depois da Chuva (Cláudio Marques e Marília Hughes, 2013) e Califórnia (Marina Person, 2015) chamam a atenção por abordarem um momento emblemático da história recente do Brasil: o período de redemocratização marcado pela campanha das Diretas Já e, posteriormente, pela última eleição indireta do país. Ao mesmo tempo, os dois filmes são protagonizados por jovens secundaristas. Em Depois da Chuva, Caio é um estudante anarquista que desconfia de certos ares otimistas do período de abertura. Nesse sentido, a escola do protagonista, palco de uma eleição para o centro acadêmico, funciona como alegoria do Brasil (XAVIER, 1983). Ali, enfatiza-se principalmente a postura de grupos contrários ao regime militar, calcados em um ideário caro aos anos 1960, alienados em relação às mutações do cenário político e cultural do resto do mundo. Além disso, o filme flagra uma série de contradições: a assimilação da rebeldia pela publicidade, a dificuldade de certos personagens em conviver com o dissenso e a busca de poder e de aceitação por parte do próprio protagonista (outrora avesso a isso) . Por outro lado, Califórnia revela os anos 1980 por outra ótica: centrado na vida de Estela, o filme narra antes de tudo a sua epopeia íntima, o período que vai da primeira menstruação ao momento em que ela tem sua primeira relação sexual. Este olhar, que espelha a busca do feminino que se destaca nos anos 1980 (Hollanda, 2000), também aborda a presença da AIDS, as relações homoafetivas e o preconceito contra minorias. Assim, Califórnia tem uma protagonista que procura ir além da sua vida de classe média, ávida por descobrir representações de mundo nos livros e nos discos. Ao mesmo tempo, a trajetória de Estela mostra o amadurecimento de um personagem que vai aprendendo a valorizar suas vivências pessoais, para além da família, dos padrões da sua turma de escola e, eventualmente, do próprio destino: a separação do namorado no final não eclipsa a alegria de uma protagonista que parece saber valorizar sua independência. Para ampliar a questão de como Depois da Chuva e Califórnia se aproximam e se afastam, sublinha-se que ambos têm posturas diferentes em relação à música, não só na forma de utilização da banda sonora, mas principalmente no seu olhar para a criação musical como expressão cultural. Em Depois da Chuva, ocorrem apresentações no auditório da escola. Num primeiro momento, um aluno entoa a música Para Não Dizer Que Não Falei das Flores, de Geraldo Vandré (1968) e faz sucesso com grande parte do público e com a diretora da escola. Posteriormente, Caio e seus amigos sobem ao palco, ironizando o show anterior. As vestimentas e a música, inspiradas no glam-rock e no movimento punk, demonstram uma postura escrachada e a crítica ferina a um dos emblemas das manifestações de protesto à ditadura. Para Caio, é necessário que a situação de redemocratização seja pensada em um contexto cultural diferente daquele próximo ao AI-5 (1968). Durante todo o filme, a utilização de músicas que não atingiram o "mainstream" radiofônico dos anos 1980 repercute a ideia de que a expressão musical é uma forma de protestar contra a situação política, que - por esse raciocínio - tem como um de seus pilares a massificação cultural. Já Califórnia procede de forma diferente. O que se destaca no filme de Marina Person é a construção de um amálgama musical, conciliando tendências diversas. O rock brasileiro dos anos 1980 (de bandas como Metrô e Titãs), a MPB (a canção Lua e Estrela, de Vinicius Cantuária) e o pop internacional (David Bowie, The Cure) são assimilados igualmente pela protagonista, sem que se exponham determinados embates estéticos da época (vide NAPOLITANO, 2002). Assim, os protagonistas e as músicas de cada filme se espelham de maneira específica: enquanto Caio pretende confrontar frontalmente o sistema, Estela busca a construção de um universo próprio, em que a soma de sensibilidades é mais relevante que a subtração das mesmas.
Bibliografia

AARÃO REIS FILHO, Daniel. Ditadura e Democracia no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

ABRAMO, Helena Wendel. Cenas Juvenis: Punks e Darks no Espetáculo Urbano. São Paulo: ANPOCS/Scritta, 1994.

HOLLANDA, Heloisa Buarque de. "A imaginação feminina no poder". In: GASPARI, Elio. HOLANDA, Heloisa Buarque de. VENTURA, Zuenir. Cultura em Trânsito: da Repressão à Abertura. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2000. p. 198-201.

NAPOLITANO, Marcos. História e Música: História Cultural da Música Popular. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.

ORTIZ, Renato. A Moderna Tradição Brasileira. 2ª edição. São Paulo: Brasiliense, 1989.

TOLCHIN, Karen R. Part Blood, Part Ketchup: Coming of Age in American Literature and Film. Lanham: Lexington Books, 2006.

VICENTE, Eduardo. Da Vitrola ao IPod: uma História da Indústria Fonográfica no Brasil. São Paulo: Alameda Editorial, 2015.

XAVIER, Ismail. Alegorias do Subdesenvolvimento. Cinema Novo, Tropicalismo e Cinema Marginal. São Paulo: Brasiliense, 1983.