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  Título
Amadorismo como estética sonora e modo de produção
Autor
Rodrigo Octávio D Azevedo Carreiro
Resumo Expandido
Sem dinheiro para alugar câmeras na pré-produção de A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, 1999), os diretores Eduardo Sánchez e Daniel Myrick resolveram o problema comprando uma Hi8 por U$ 500 no cartão de crédito, realizando as filmagens, pedindo reembolso ao devolver o equipamento por um motivo técnico qualquer. O episódio (ROMBES, 2009) sublinha o motivo por A Bruxa de Blair ter se tornado marco de um fenômeno cultural: a valorização de imagens com aparência amadora. O sucesso do filme demonstrou como o amadorismo, tratado como modo de produção, acabou por se tornar paradigma estético da virada do milênio.

A popularização de celulares e câmeras digitais de baixo custo e alta resolução, associados à circulação massiva de material produzido com esses dispositivos através de redes sociais, naturalizou a estética do amadorismo e tornou esse tema muito ativo entre pesquisadores de muitas áreas, como Chris Anderson (2006) e Alvin Toffler (2007).



Broderick Fox (2004) lembra que Hollywood desenvolveu, desde as primeiras décadas, um modo de produção baseado na divisão do trabalho. Esse modo criou categorias profissionais que exigiam domínio técnico de equipamentos caros e de difícil operação. Foi essa prática que determinou o modelo estético do audiovisual que chamamos, até hoje, de “profissional”. A divisão rígida da fronteira estética desta categoria com a do “amador” constituiu, durante muito tempo, um “processo histórico de controle social sobre a representação” (ZIMMERMANN, 1995, xv).



No caso do som, a estética convencional costuma privilegiar a legibilidade da voz, a música como elemento catalisador de afetos, e a produção artesanal de ruídos (foley, ambientes, sound effects). A estética sonora “profissional” de filmes, portanto, foi historicamente construída sob uma cadeia produtiva bastante fragmentada, e baseada numa relação hierárquica em que a voz tem privilégio sobre a música, e esta sobre os efeitos sonoros.



Nesta comunicação, realizo um estudo comparativo entre filmes pertencentes a dois ciclos cinematográficos que têm adotado modos de produção ou modelos estilísticos que divergem consideravelmente da estética sonora “profissional”. Os dois ciclos possuem forte interesse de exibir ao público marcas oriundas de um suposto “amadorismo” no tratamento sonoro. São ciclos, portanto, que valorizam som “ruim” (JOHNSTON, 2014).



O primeiro ciclo de produção, denominado pela crítica como found footage, é constituído por um conjunto de longas-metragens estilisticamente semelhantes a documentários, com narrativas construídas a partir de supostas filmagens abandonadas por testemunhas de eventos fantásticos. Os filmes de falso found footage constituem um filão muito produtivo (HELLER-NICHOLAS, 2014), tendo produzido pelo menos 550 títulos nos últimos 15 anos.



O segundo ciclo é constituído por filmes do movimento mumblecore. Trata-se de filmes independentes de baixíssimo orçamento, que começaram a ser produzidos entre os anos 1990 e 2000, a partir do mesmo fenômeno de valorização de um realismo “amador”. O ponto de partida – espécie de A Bruxa de Blair do mumblecore – foi Funny Ha Ha (Andrew Bujawski, 2002), drama que retrata o cotidiano inerte da geração norte-americana de jovens de 20 e poucos anos (DIAS, 2008).



As razões para o realismo exibido por esses filmes são, em muitos casos, diferentes daquela dos falsos found footage: enquanto esses últimos dependem da aparência realista para simular a aparência documental (o “amadorismo” do som apenas simula ser acidental), os filmes mumblecore são micro-produções em que o interesse por uma estética convencional (ou “profissional”) parece ter importância menor. Os found footage valorizam o amadorismo como estética; os filmes mumblecore, como modo de produção. Através da análise de cenas de obras importantes, pretendemos demonstrar como semelhanças e diferenças daquilo que cada um dos dois ciclos considera som “ruim”.
Bibliografia

ANDERSON, Chris. A cauda longa. São Paulo: Elsevier, 2006.

CARREIRO, Rodrigo. “O uso do som em falsos documentários de horror”. In: Ouvir o documentário (org. Guilherme Maia e José Francisco Serafim). Salvador: Edufba, 2015, pp. 197-211.

DIAS, Rafael. "Geração blá blá blá". In: O Grito [revista online], n. 47. Recife, 2008. Disponível em http://revistaogrito.ne10.uol.com.br/page/blog/2008/06/30/mumblecore/. Acesso em 9/5/2015.

FOX, Broderick. “Rethinking the amateur”. In: Spectator [magazine], n. 24, v. 1, 2004.

HELLER-NICHOLAS, Alexandra. Found footage horror films. Jefferson: McFarland, 2014.

JOHNSTON, Nessa. “Theorizing ‘bad’ sound: what puts the ‘mumble’ into mumblecore?”. In: The Velvet Light Trap, v. 74. Austin, 2014, pp. 67-79.

ROMBES, Nicholas. Cinema in the digital age. London: Wallflower Press, 2009.

TOFFLER, Alvin. A terceira onda. Rio de Janeiro: Record, 2007.

ZIMMERMAN, Patricia. Reel families. Indianapolis: Indiana University Press, 1995.