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  Título
Lágrima Pantera (Fragmento): entre cinema e quase-cinema
Autor
Theo Costa Duarte
Resumo Expandido
Ao fim dos anos 1960 e início dos 1970 encontra-se um dos últimos períodos em que os cinemas experimentais estabeleceram fecundo diálogo com as artes visuais tendo ainda em vista a exibição e circulação dos filmes em cinema. Neste mesmo período via-se a ascensão da chamada videoarte e de outros esforços audiovisuais direcionados para exibição em demais espaços.

No Brasil, em obras do que ficou conhecido como “cinema marginal”, encontra-se algumas dessas aproximações com questões provindas da vanguarda das artes visuais. Alguns desses filmes dialogaram com conceitos e proposições até então incomuns no cinema nacional, provenientes de práticas experimentais do cinema e das artes visuais. Pode-se apontar para certas propostas compartilhadas, tais como: o interesse por formas que exigiriam uma participação ativa dos espectadores, seja pela interpelação, agressão e participação, buscando-se romper com uma possível relação contemplativa; o elogio do “amador”, da informalidade e de práticas, técnicas e suportes anti-industriais que possibilitavam a experimentação e maior aproximação com o acaso; a abertura para colaborações e para a criação coletiva; a proeminência de uma dinâmica processual na composição; a atenção e incentivo ao gesto e as performances dos corpos.

"Lágrima Pantera", de Júlio Bressane, se insere nesse contexto e compartilha de parte considerável das caraterísticas acima relacionadas. Filmado no exílio do diretor em 1971 o filme foi montado no ano seguinte e perdido; resta um fragmento remontado pelo próprio diretor em 2006.

Bressane ambicionava com "Lágrima Pantera" mimetizar os filmes Super-8 de Hélio Oiticica. Interessava-lhe a aproximação selvagem do artista com a forma cinema, semi-amadora, com uma sensibilidade artística distinta da profissional. Como descreve:

“Ele me mostrou uma porção de filmes em super-8 que eu achei espetaculares justamente porque estava buscando uma coisa que eu também buscava, o cinema fora do cinema. E ali eu tinha achado uma pessoa que estava buscando fazer um cinema, estava buscando se aproximar do que era imagem em movimento e foi com isso que eu fiquei fascinado. Então eu fiz um filme parodiando e imitando o processo dessa natureza: se aproximar de uma coisa que para você é muito conhecida, e ir justamente até a dobra onde ela é desconhecida. O "Lágrima Pantera" é uma impressão dessa impressão do que eu senti do Hélio buscando uma imagem. (...) "Lágrima Pantera" é isso, eu fiz em cima dessa conversa e dessa minha visão desses filmes super-8 experimentais do Hélio, que mais tarde chamou-se de quase-cinema.” (2002:18)

Como no restante de sua obra Bressane buscava transpor o método e alguns procedimentos estilísticos de outros meios artísticos; tratava-se de “buscar homologias no plano do método construtivo” (Xavier, 2006:17). Nesse filme a busca voltaria aos traços de invenção desse novo campo de experiência artística que então interessava Oiticica, misto de cinema experimental, artes visuais, performance e cinema amador que apenas futuramente nomearia como quase-cinema.

Nessa aproximação encontra-se uma das razões para a fragmentação de "Lágrima Pantera". Segundo Bressane o material filmado “não era para ser montado de maneira alguma, era como um super-8, feito em 16mm. [...] Era como um super-8, era uma imagem atrás da outra” (2002:18). Em comum com a prática do cinema amador e com os primeiros experimentos cinematográficos do artista nesse formato, "Lágrima Pantera" se constituía de planos descontínuos, não se articulando em função de elaboração de uma intriga, do desenvolvimento de personagens etc. Apesar de ser característica da obra bressaneana a estrutura paratática, a tendência à fragmentação e ao amadorismo é radicalizada em "Lágrima Pantera". De modo semelhante aos filmes de Oiticica o filme se apresenta como um processo não acabado, em que prevalece o caráter espontâneo da criação, no limiar entre cinema e outros meios como a fotografia e o filme de família.
Bibliografia

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Xavier, Ismail. Alegorias do subdesenvolvimento. São Paulo: Brasiliense, 1993.

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