Voltar para a lista
 
  Título
Do périplo e seus encontros
Autor
Annádia Leite Brito
Resumo Expandido
A exposição “A conversa infinita”, do artista e professor Alexandre Veras, estabeleceu o encontro como elemento indispensável para sua concretização, desde a fase de montagem até o contato com o público. Convidado pelo Porto Iracema das Artes (Fortaleza-CE) a desenvolver um projeto que engajasse cerca de quarenta jovens artistas interessados, Veras propôs a feitura de sete obras em uma exposição que ocupou os dois pisos do Museu de Arte Contemporânea do Ceará.

Todas as obras apresentadas, que estiveram em cartaz de setembro a outubro de 2015, são instalações. Cinco delas utilizam imagens projetadas e som, enquanto outras duas veiculam som espacializado em determinados objetos.

Objetiva-se delinear como as obras em suas especificidades compuseram o todo da exposição como uma experiência de encontro, seja através da priorização da escala humana nos materiais e nas projeções dos corpos; no uso da voz em diálogo veiculada em objetos que revelam um vínculo de intimidade – os travesseiros; ou em sua relação com as pessoas em um fluxo constante de reinvenção mútua.

O tema do cansaço, na intersecção com Blanchot (2001), é tomado como experiência mobilizadora de uma potência propícia ao surgimento do novo, das intensidades além da linguagem, aproximando-se do conceito de esgotado em Deleuze (2010). O espectador é livre para fazer seu percurso, porém iniciar com a experiência de um cansaço transmutador é permitir-se estar em outro estado para seguir em contato com as obras da exposição.

Obras essas que, em sua maioria, trazem a escala humana aplicada às figuras projetadas para colocar em questão a presença, o estar diante dos corpos em movimento, entre gestos e ruídos distribuídos no espaço para sublinhar com mais força a sensorialidade. Ademais, em “Jogo de varetas” – sala escura com grandes cilindros negros – aproxima-se da investigação de Didi-Huberman (1998) acerca dos trabalhos minimalistas, de uma presença que se dá pela ausência.

Partindo da espacialização de “O regresso de Ulisses” – curta-metragem de videodança realizado por Veras em 2008 –, toma-se o conjunto analisado da exposição como um périplo no qual o público pode se lançar à maneira do Odisseu e habitar o campo do experimental, como conceituado por Oiticica (1972, p. 5-6) em “um ato cujo resultado é desconhecido” e aberto a possibilidades.

Desde a primeira sala, o encontro entre público e exposição enseja a modificação e reconstrução de ambos, que se abrem em uma dimensão pré-individual, na qual o meio associado, formado a partir da presença dos dois, desencadeia uma constante diferenciação de si mesmos, resultando em algo que não se pode antecipar. Entre o espectador e o trabalho artístico se cria “um espaço-tempo que abriga relações dinâmicas entre obra e humano” (OLIVEIRA, 2012, p. 103), ininterruptamente formando e atualizando essas instâncias no ato de experienciar. Ambos estão em devir, em contínua modificação de si.
Bibliografia

BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

___________. A conversa infinita 1: A palavra plural. São Paulo: Escuta, 2001.

DELEUZE, Gilles. O esgotado. In: Sobre o teatro. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Ed. 34, 1998.

OITICICA, Hélio. Experimentar o Experimental. 1972. In: Programa Hélio Oiticica, Itaú Cultural. Disponível em: . Acesso em: 05 maio 2016.

OLIVEIRA, Andréia Machado. Corpos Associados: a Arte e o ato de experienciar de acordo com Gilbert Simondon. Informática na educação: teoria & prática, Porto Alegre, v.15, n. 1, p. 103, jan./jun. 2012.