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  Título
Afrofuturismo e a diáspora negra: uma viagem temporal por imagens
Autor
Kênia Cardoso Vilaça de Freitas
Resumo Expandido
Em "Space is the place" (John Coney, EUA, 1974), o jazzista Sun Ra retorna a Terra (após anos em exílio extraplanetário, acompanhado apenas por sua banda). Nessa volta, a missão do músico é a de libertar a população negra do planeta, levando-os para a nova colônia extreterrena. Para realizar o seu objetivo ele terá de duelar em jogo de cartas com o diabo. A disputa consiste em uma série de desafios (que se desenrolam em décadas diversas) entre Ra e o diabo pela alma dos negros americanos.

Em “Last angel of history” (John Akomfrah, Reino Unido, 1996), o "ladrão de dados" deve viajar através do tempo e espaço em busca de uma encruzilhada onde ele fará escavações arqueológicas a procura de fragmentos da história e das tecnologias que revelarão o código que guarda a chave para o seu futuro. Nessa metanarrativa, o que a estrutura do filme revela é a própria construção do movimento afrofuturista - por imagens de arquivo diversas e por entrevistas com teóricos e artistas negros construtores do movimento.

No filme "Branco sai, preto fica" (Adirley Queirós, Brasil, 2014), Dimas Cravalanças é um viajante no tempo, vindo diretamente de 2073. A sua missão é a de coletar evidências no passado sobre as ações repressivas da polícia no baile charme do Quarentão, na Ceilândia, DF, Brasil. O crime do Estado brasileiro aconteceu em 1986, mas Dimas foi mandado para cerca de 30 anos depois do acontecimento, caindo com a sua máquina do tempo nos dias atuais. Esses eventos traumáticos do passado são o ponto de referência da parte verídica da narrativa. E o presente é uma versão distópica da capital brasileira e dos seus entornos.

Partindo das narrativas desses três filmes, este trabalho pretende analisar filmes que lidam com a experiência da diáspora negra explorando o universo da ficção especulativa e dos curto-circuitos temporais. Como os personagens reais, ficcionais e autofabulados desses filmes, podemos dizer que as populações negras em diáspora são os descendentes diretos de alienígenas, abduzidos de uma cultura para outra pela escravidão. A comparação do processo de diáspora da população africana com a construção de uma narrativa de ficção científica extraterrestre não deixa de ser brutal, potente e, ao mesmo tempo, curiosa – visto que tão poucos negros e negras protagonizam (como criadores e/ou personagens) o universo das fantasias futuríticas no cinema. Essa ideia é o ponto a partir do qual Mark Dery cunha o termo Afrofuturismo para tratar das criações artísticas que, por meio da ficção científica, inventam outros futuros para as populações negras atuais.

Mais do que previsões ou premonições do futuro, as narrativas de ficção científica são formas especulativas de pensar o presente. Kudwo Eshun traduz essa ideia em uma concisa e certeira frase: “A existência negra e a ficção científica são uma e a mesma”. Para o escritor de ficção científica Samuel R. Delany, há uma ligação direta entre a privação da construção de um passado das populações negras em diáspora pós-escravidão e a escassa produção de imagens futuras para as populações negras.

Iremos analisar então os filmes que tratam da experiência da diáspora negra, explorando o universo da ficção especulativa e dos curto-circuito temporais que esses filmes engatilham. Para isso, seguiremos os rastros incertos destes personagens viajantes no tempo que zigzagueiam entre passado, futuro e presente. Cada viajante vivencia processos diaspóricos diversos (geográfica e culturalmente), porém em todos o amalgama temporal é um um elemento central da história e da sua potência estética e política. Assim, nós tentaremos entender que perspectiva é essa das narrativas: utópica ou distópica? Como eles imaginam e fabulam o passado? Como especulam e alucinam o futuro? Nosso objetivo será o de explorar as especulações e as interseções das temporalidades em cada uma dessas narrativas cinematográficas, a partir das viagens temporais dos seus personagens.
Bibliografia

DELANY, S. R. The necessity of tomorrows. In: Starboard Wine: more notes on the language of science fiction. New York: Dragon Press, 1983.

DERY, M. "Black to the future: interviews with Samuel R. Delany, Greg Tate and Tricia Rose". In: Flame Wars: the discourse of cyberculture. Durham, NC: Duke University Press, 1994.

ESHUN, K. "Further considarations on Afrofuturism". In: The New Centennial Review, Volume 3, Number 2, Summer 2003, pp. 287-302.

__________. More Brilliant Than the Sun: Adventures in Sonic Fiction. London: Quartet Books, 1998.

FREITAS, K. (org.). Afrofuturismo: cinema e música em uma diáspora intergaláctica. São Paulo, Festival Catalogue: November, 2015.

HARAWAY, D. Sowing Worlds: a seedbag for terraforming with earth others. In: GROBOWICZ, M., MERRICK, H. (Orgs.). Beyond the cyborg: adventures with Donna Haraway. Nova Iorque: Columbia University Press, 2013.

WOMACK, Y. Afrofuturism: The world of black sci-fi and fantasy culture. Chicago: Lawrence Hill Books, 2013.