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  Título
Constelações de "Terra em transe": reflexões sobre a imagem dialética
Autor
Bruno Fabri Carneiro Valadão
Resumo Expandido
Em 1967, quando do lançamento do segundo longa-metragem de Glauber Rocha, Terra em transe, Nelson Rodrigues definiu a fita recém-lançada como um “vômito triunfal”, pois, “qualquer obra de arte para ter sentido no Brasil, precisa ser esta golfada hedionda” (RODRIGUES, 1994). Hoje, passados quase cinco décadas, o insight rodriguiano parece-nos o mote ideal para propormos o cinema – em especial a obra de Glauber Rocha – como um “medium criador de imagens” (BENJAMIN, 2006) que tem na montagem cinematográfica o instrumento perfeito para nos revelar as verdadeiras imagens: as imagens dialéticas, que faz a tarefa do cineasta se confundir com a tarefa do historiador, tanto em 1967 quanto hoje.



Nas circunstâncias temporais e espaciais a que aludiremos nesta comunicação, o cineasta se transforma num tipo privilegiado de historiador, aquele que analisa as coisas e os fenômenos a partir de uma perspectiva bastante especial. É isso que entendemos como uma “historiografia barroca” que se diferencia da história como ciência da causa-e-efeito por ter uma origem não uma gênese (BENJAMIN, 1984) como a “razão dominadora” (ROCHA, 2005) quer fazer crer. O historiador – segundo o comentário de Sérgio Paulo Rouanet para Origem do drama barroco alemão de Walter Benjamin (1984) – “mineraliza” o fluxo incessante dos acontecimentos e analisa a fundo esses fenômenos, salvando seus extremos, assim entrevendo uma “estrutura” – que não é da ordem do estruturalismo e de suas correntes, mas de uma rede de afinidades invisíveis. Aqui, surge o que Benjamin chama de “história natural”: um fenômeno histórico não seria consequência de tempos e fenômenos imediatamente anteriores a ele, mas de séries de afinidades que concatenam diversos fenômenos separados no tempo e no espaço, formando uma constelação.



Portanto, o filme Terra em transe é um fato cinematográfico atravessado pelos mais diversos elementos: sons, imagens e palavras, ditas e escritas, que se entrelaçam formando um turbilhão que busca recontar a história e a política brasileiras – e da América Latina –, analisando estes elementos e os reordenando de maneira não-naturalista. Usa de recursos que fazem uso de expedientes literários que incidem na mise-en-scène do filme e na montagem, proporcionando uma escritura fílmica peculiar.



A atualidade deste longa-metragem em nossos dias reside neste apelo permanente ao presente, ao nosso agora (tomado aqui em um sentido mais forte, urgente). Sua capacidade de sempre se reatualizar, nos campos histórico, político e artístico, demonstram seu potencial de renovação constante nos âmbitos do debate cultural e cinematográfico no Brasil, na América Latina e no mundo. Não se trata apenas de um “epitáfio” do espírito de uma época, como já foi definido por Ismail Xavier em Alegorias do subdesenvolvimento (1987/2012), mas de um autêntico, reinteremos aqui mais uma vez, “medium criador de imagens” que sempre torna latente (através da anamnesis de um tipo especial) os elementos revolucionários permanentes que habitam não mais o “presente” (referente à “razão dominadora”), mas o “agora da cognoscibilidade” (BENJAMIN, 2006), locus da Verdade.
Bibliografia

ANDRADE, Oswald de. A crise da filosofia messiânica. In: A utopia antropofágica. São Paulo: Globo, 2001.



BENJAMIN, Walter. Questões introdutórias de crítica do conhecimento. In: Origem do drama barroco alemão. São Paulo: Brasiliense, 1984.



BENJAMIN, Walter. Konvolut “N” (Teoria do conhecimento, teoria do progresso). In: Passagens. Org. Willi Bolle. Belo Horizonte: UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial, 2006.



FRIEDRICH, Hugo. Baudelaire: o poeta da modernidade. In: BAUDELAIRE, Charles. Poesia e prosa. (Org. Ivo Junqueira). Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006.



ROCHA, Glauber. Revolução do cinema novo. São Paulo: Cosac Naify, 2005.



ROCHA, Glauber. Roteiros do terceyro mundo. Org. Orlando Senna. Rio de Janeiro: Embrafilme/ Alhambra, 1985.



RODRIGUES, Nelson. A menina sem estrela. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.