Voltar para a lista
 
  Título
Tangerine: os movimentos de câmera de um filme “brutalmente real”
Autor
Marina Cavalcanti Tedesco
Resumo Expandido
Tangerine (Sean Baker, EUA, 2015) se passa em apenas um dia, o dia que a prostituta transexual Sin-Dee sai da cadeia. Ao se encontrar com sua melhor amiga, ela descobre que seu namorado está saindo com uma prostituta cisgênero. Indignada, Sin-Dee começa a rodar pela cidade até encontrar os dois e puni-los pela traição.

Trata-se de um filme que se diferencia das produções que estrearam recentemente nas salas de cinema por vários aspectos. Destacamos aqui: 1) a singularidade da história que é narrada; 2) as duas personagens mais importantes da obra serem mulheres trans interpretadas por mulheres trans, Kitana Kiki Rodriguez e Mya Taylor (esta última ganhou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Independent Spirit Awards); e 3) sua fotografia, desde a paleta de cores escolhida até os movimentos de câmera, passando pela exposição.

Filmado com três iPhones 5Ss equipados com adaptadores anamórficos da Moondog Labs de 160 dólares que permitiram que o resultado final fosse 2.40:1, e não o nativo 6:9, com o aplicativo Filmic Pro, fundamental para a fotometria, a colorimetria e o foco por permitir a setagem manual deste e de outros parâmetros, e um Steadicam Smoothee o efeito obtido é uma visualidade extremamente crua, brutal.



Em um Q&A [Questions and Answers] na première de Sundance, [Mya] Talyor lembrou de dois princípios [de Baker e do corroteirisa]: o filme deveria ser “brutalmente real” mostrando o que elas enfrentam diariamente e deveria ser divertido “porque eu quero que seja um entretenimento, e as garotas querem se divertir e esse deve ser um filme para elas também” (THOMSON, 2016, online).



A partir de uma análise fílmica, cujos resultados serão postos em diálogo com o material produzido sobre Tangerine por periódicos especializados em cinematografia, pretendemos contribuir para a compreensão da lógica de utilização de seus movimentos de câmera e dos sentidos que eles ajudaram a construir.

Muitos dos movimentos de câmera da referida obra, executados por Sean Baker e Radium Cheung, foram possíveis, como já citado, graças a um Steadicam Smoothee. Devido à leveza do celular e de suas lentes seria impossível evitar uma grande trepidação nas situações de câmera na mão, o que poderia aproximar o longa dos milhares de vídeos amadores gravados diariamente com telefones portáteis – uma estética que não interessava à dupla de fotógrafos.

O resultado são planos que acompanham as personagens boa parte do tempo, e que impressionam pelo seu vigor, pela intensificação do efeito de “brutalmente real”. Para chegar a ele, recorreu-se inclusive a algumas técnicas inusuais.



Por sua vez, Baker dominou o uso do Smoothee bem o suficiente para operá-lo apenas com uma mão enquanto dirigia uma bicicleta. Um experiente ciclista c um antigo bike messenger, Baker transformou sua 10 marchas em um ágil dolly de duas rodas, fazendo 360 graus em torno de seus personagens ou cruzando por eles com a força de um skate (THOMSON, 2016, online).



Apesar de se chamar Steadicam Smoothee, o aparato utilizado por Baker e Cheung consiste em uma estrutura muito menor e mais leve que a que vem em nossa mente quando ouvimos tal termo. No entanto, independente destas diferenças, as motivações para o seu emprego são muito semelhantes que os primeiros a se valerem da tecnologia, em 1976.

Na American Cinematographer de abril e maio de 1983, o operador de Steadicam Ted Churchill escreve que “[o Steadicam] tem uma importante função não-técnica: ele encoraja a inovação” (CHURCHILL apud RAMAEKER, 2014, p.120). E complementa: “a capacidade do Steadicam para mudanças rápidas de perspectiva, para fazer movimentos de grande vigor, funciona maravilhosamente com cortes rápidos, criando forte excitação na audiência” (idem).

Evidentemente nem todas as opiniões em relação ao Steadicam foram favoráveis (DUBOIS, 2004, p.192). Contudo, em Tangerine seu uso contribui para a imersão do espectador na história e aumenta a empatia com as protagonistas trans.
Bibliografia

BERNSTEIN, Paula. “How the DP Behind Sundance Hit 'Tangerine' Created a Cinematic Look with an iPhone”. Disponível em:. http://www.indiewire.com/article/how-the-dp-behind-sundance-hit-tangerine-created-a-cinematic-look-with-an-iphone-20150709

DUBOIS, Philippe. Cinema, vídeo, Godard. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

PRÉDAL, René. La photo de cinéma: suivi d’un dictionnaire de cent chefs opérateurs. Les éditions du cerf: Paris, 1985.

RAMAEKER, Paul. “The New Hollywood, 1981-1999”. In: Patrick Keating. Cinemarography. Londres: I.B. Tauris, 2014. p.106-131

SALT, Barry. Film style and technology: history and analysis. Starword: Londres, 2009.

TEDESCO, Marina Cavalcanti. Desnaturalizar a técnica: contribuições feministas para pensar a direção de fotografia cinematográfica. Significação, São Paulo, n. 41, p. 117-134, 2014.

THOMSON, Patricia. “Tangerine”. American Cinematographer – Online Archives. Disponível em: https://www.theasc.com/ac_magazine/February2015/Sundance2015/page5.php