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  Título
A ALEGORIA DO SAGRADO EM BERGMAN
Autor
Fabiana Rodrigues
Resumo Expandido
Definir o conceito de “sagrado” é uma tarefa complexa porque não se pode pensar no nesse conceito apenas no sentido de algo estritamente ligado à religião. É muito comum o achismo de que o termo “sagrado” e “religião” são sinônimos, que se interligam não deixando espaço para outras definições. Também, não se pode pensar no sagrado sem pensar no a-sagrado, ou talvez, no próprio profano. Essa é a tônica que vem a nortear essa pesquisa: a representação alegórica do sagrado na obra do cineasta sueco Ingmar Bergman - o sagrado como um devaneio da alma, o sagrado como um pano de fundo ao profano.

O termo “sagrado” , há muito, tem sido usado em sua forma derivada de algo que exprime o perfeitamente bom, ou seja, um atributo de moralidade, divindade, algo que faz bem. Em Kant, por exemplo, há chamada “vontade santa”, a vontade impelida pelo dever e que obedece à lei moral, à convenções do sagrado, do ser sagrado. O sagrado e o profano vem a formar uma parte dessa dialética em que se impõe e pressupõe o outro de forma que é extremamente difícil compreender o primeiro sem o segundo. Esta relação é tão extrema que, se contrapomos tais elementos de forma lógica, percebemos que, se todo o mundo fosse composto pelo viés do sagrado, este então, estaria de tal forma dissolvido no mundo que não poderia ser diferenciado e, perderia sua característica básica: ter valor e significado plenos e diferentes no mundo. Mas, de que ordem é esse “sagrado” que Bergman aborda em boa parte de suas obras? Julgo ser algo da ordem do alegórico. Portanto, analisaremos o conceito de sagrado na obra de Bergman de forma ampla, vasta, não nos limitaremos a uma única definição, ou melhor, a definição mais marcada a qual aproxima o “sagrado” do contexto religioso, pois o sagrado será visto, aqui, como uma perturbação dos sentidos, ou, ainda, como algo que venha a dar sentido à construção cênica no cinema de Bergman. Essa construção cênica pode ser pensada como uma alegoria, uma ideia que perpassa o sentido literal, voltando-se à questão do existencialismo. A palavra alegoria deriva do grego “allós” – outro – e de “agourein” – falar. A retórica antiga teorizou a alegoria como uma forma de expressão, em que se “diz b para significar a” ; consiste, portanto, na substituição de um pensamento por outro a que está ligado, mantendo uma relação de semelhança entre o referente e seu significado subjacente. Em Bergman, cada elemento, cada close, cada cena expressa outro significado que não o seu sentido manifesto, remetendo a outro nível de significação. Bergman não faz considerações a nomenclaturas religiosas ou exposições a religiões em si, o que o cineasta explora é o contexto do “sagrado”, ou, os espaços ditos “sagrados”. Muito provável que haja uma alegoria dos sentimentos e desejos mais recônditos da alma humana. Podemos pensar esse “sagrado” como uma alegoria definida como um tropo do pensamento do cineasta, uma metáfora continuada, capaz de exprimir ou representar de forma concreta suas ideias mais abstratas.

Essa forma de abstração da realidade apresenta dois sentidos completos: um literal e outro intelectual, porém sua significação fundamental repousa no sentido conotado, simbólico que evoca e intensifica o significado que surge a partir do objeto denotado, da cena mensurada.

Como objeto de pesquisa serão analisados os seguintes filmes do cineasta: “A fonte da donzela – 1960”; “Através do espelho – 1961”e “Luz de Inverno – 1962”. Com exceção de “A fonte da donzela”, os filmes “Através do Espelho (1961); “Luz de Inverno” (1962) e “O Silêncio” (1963), fazem parte da chamada “Trilogia do Silêncio”. Essas obras recebem esse nome por se constituírem na chamada crise da fé, ou como notoriamente conhecida “ausência de Deus”. Os três filmes apresentam algumas variações entre si, e ainda que a temática seja quase sempre revisitada, a abordagem e a construção narrativa são distintas, mantendo cada um dos filmes a sua singularidade.
Bibliografia

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