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  Título
O “cinema de fluxo” de Seguindo em frente, de Hirokazu Koreeda
Autor
Mari Sugai
Resumo Expandido
No início do ano 2000, Stéphane Bouquet, crítico da Cahiers du Cinéma, criou o conceito de estética de fluxo para designar a tentativa de compreender o mínimo em comum presente em alguns filmes de diversas regiões e culturas, que apresentam semelhanças na produção de atmosferas com o intuito mais sensorial, valorizando o tempo e ações de pequenas percepções (CUNHA, 2014). A intenção seria explorar o poder do gestual, do cotidiano, dos afetos, despido de excessos e embebido de sentidos originados por outra ordem. De acordo com Emiliano Fischer Cunha (2014), estas obras oferecem uma nova forma sensorial de olhar o dia-a-dia, atenta à possibilidade de produção sensorial a partir dos gestos banais.

A temática do cotidiano e presença da espacialidade são participantes em diversas obras audiovisuais produzidas atualmente. Alguns possuem o estilo narrativo integrante do “cinema de fluxo”, cuja definição, segundo Luiz Carlos Gonçalves de Oliveira Júnior (2010, p. 1), são “filmes que se apresentam como um fluxo esticado, contínuo, um escorrer de imagens no qual se abismam todos os instrumentos clássicos mantidos pela própria definição da mise-en-scène”. Ele possui, dentre outras características em comum às obras dos cineastas desta tendência, por exemplo, o fato de aceitarem ou se deixarem influenciar e se entregar aos acontecimentos do mundo, à sua natural desorganização, sem buscar manipular de modo rígido, os elementos presentes em uma filmagem (CARVALHO; REINALDO, 2012).

Estabelece-se, portanto, através do “cinema de fluxo”, um outro modo de captar imagens do cotidiano e dos espaços (internos e externos), uma nova relação com o “real” cinematográfico. Porém, as imagens captadas por essa estética operam no âmbito de uma investigação sutil e em versão macro do cotidiano, como um “real em tom menor” (LOPES, 2007) de poética situada na esfera do comum e do ordinário, com ênfase no habitual, em que é possível identificar a intenção de direcionar a câmera para a contemplação do espaço e tempo fílmicos, em que a percepção habitual é suspensa (VIEIRA JÚNIOR, 2011). Encontra-se, portanto, com essa outra forma de produção fílmica, um estilo mais fluido, que permite uma relação distinta de tempo e espacialidade fílmica.

Cremos que o cineasta Hirokazu Koreeda possa fazer parte desta tendência, pois tais quais as características citadas, seu trabalho apresenta pontos em comum com os já referidos, além de seus filmes contarem com enredos “simples”, do cotidiano de seus personagens, e que, em alguns momentos a câmera pousa em imagens que mostram uma “insignificância” das coisas, produzindo, conforme Oliveira Junior menciona em relação ao “cinema de fluxo”, “imagens que valem mais por suas modulações do que por seus significados” (2010, p. 92).

Para este trabalho, o filme corpus de nossa investigação é Seguindo em frente (2008), de Koreeda, obra que retrata durante o período de um pouco mais de um dia, uma reunião familiar para recordar a morte do filho. Apesar do rigor visual apresentado pelos planos, que conta com takes fixos e sem movimento em quase a totalidade da película, existem sequências com silêncios entre os personagens, além de paisagens contemplativas em cenas internas (planos mortos) e externas.

Para realizarmos a análise fílmica, para a abordagem do cotidiano familiar (e japonês) utilizaremos respectivamente Michel de Certeau (2014 e 2013) e Shuichi Kato (2012), além de Gaston Bachelard (2008) e Giuliana Bruno (2007) para a modalidade referente ao espaço. Sobre o “cinema de fluxo”, nos apoiaremos nas obras de Raiana Soraia de Carvalho e Gabriela Frota Reinaldo, Emiliano Fischer Cunha (2014) e, Luiz Carlos Gonçalves de Oliveira Júnior (2010).

Seguindo em frente pode não ser um típico filme pertencente ao “cinema de fluxo”, como são os de Hou Hsiao Hsien, Jia Zhang-Ke, Claire Denis, Tsai Ming-Liang e outros; entretanto, mostra-se possível encontrar momentos e elementos que podem caracterizá-lo como tal.
Bibliografia

BRUNO, G. Atlas of emotion. Journeys in art, architecture, and film. Londres: Verso, 2007.

CARVALHO, R. S.; REINALDO, G. F. Cinema, fluxos e imersão: um olhar sobre os filmes Gerry e Last days. Disponível em: . Acesso em 07 abr. 2016.

CERTEAU, M. A invenção do cotidiano 1-Artes de Fazer. Petrópolis: Ed. Vozes, 2014.

CERTEAU, M; GIARD, L.; MAYOL, P. A invenção do cotidiano 2-Morar, cozinhar. Petrópolis: Ed. Vozes, 2013.

CUNHA, E. F. Cinema de fluxo no Brasil: filmes que pensam o sensível. 171 f. PUCRS, Porto Alegre, 2014.

KATO, S. Tempo e espaço na cultura japonesa. Trad.: Neide Nagae e Fernando Chamas. São Paulo: Estação Liberdade, 2012.

OLIVEIRA JÚNIOR, L. C. G. O cinema de fluxo e a mise en scène. 2010. 162 f. Meios e Processos Audiovisuais-USP, São Paulo.

SANTOS, F. H. R. Cinema de fluxo no âmbito contemporâneo. In: ANAIS DO SEMINÁRIO NACIONAL CINEMA EM PERSPECTIVA, Vol. 1, Curitiba: FAP, 2012.