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  Título
A ausência e a presença: notas sobre o documentário Histórias Cruzadas
Autor
Francisco Alves dos Santos Junior
Resumo Expandido
Integrante do projeto de restauração das obras do cineasta brasileiro Joaquim Pedro de Andrade e encartado como extra no DVD do clássico Garrincha, a Alegria do povo, o documentário Histórias Cruzadas (2008), realizado por Alice de Andrade, resgata a vida pública e privada de Joaquim Pedro, pai da realizadora. Realizado 30 anos após a morte do cineasta e narrado em primeira pessoa, podemos afirmar que Histórias Cruzadas, situa-se naquilo que a pesquisadora argentina Beatriz Sarlo vem chamando de pós-memória, que de acordo com ela pode ser identificada em obras artísticas nas quais se “descreve o caso dos filhos que reconstituem as experiências dos pais, apoiados na memória deles, mas não só nela. A pós-memória, que tem a memória em seu centro, seria a reconstituição da memória de fatos recentes não vividos pelo sujeito que os reconstitui”. (SARLO, 2007, p. 93). Nesse filme, a memória íntima e a memória coletiva, que trabalham de maneira sobrepostas, constroem um retrato afetivo do cineasta, do cinema brasileiro e de uma geração de intelectuais que acreditavam no cinema como uma ferramenta importante de transformação da realidade brasileira. Utilizando de um vasto material de arquivo, que inclui fotografias, filmagens caseiras realizadas em Super 8, entrevistas e trechos de filmes realizados por Joaquim Pedro de Andrade, a diretora reconstrói a uma parte da sua própria vida e, por conseguinte, as suas memórias e a sua relação com o pai. Para além de um registro íntimo ou familiar, acreditamos que o documentário que pretendemos analisar, adquire um valor histórico, uma vez que transforma-se num documento (ODIN, 2012) sobre um importante período da história e da cultura brasileira. Conforme defende Leonor Arfuch, observando a crescente produção contemporânea de textos que exploram a construção do “eu” (cinema, literatura, programas de televisão, etc), os limites entre o que chamamos de real e a ficção se tornam cada vez mais escorregadios (ARFUCH, 2010). Entretanto, como escreve o teórico francês Roger Odin “um filme permanece como um documentário mesmo quando se coloca sobre ele um julgamento negativo no que se concerne à verdade do representado e à sinceridade de seu autor” (ODIN, 2012, p. 17). Diante disso, a nossa intenção nessa comunicação é entender como a diretora, a partir do entrecruzamento entre a memória intima e a memória coletiva, do uso de arquivos públicos e caseiros e de entrevistas com pessoas que conviveram com o seu pai, reescreve uma parte da sua própria vida e da relação de presença e de ausência do cineasta Joaquim Pedro de Andrade ao longo dos 30 anos que separam a morte do diretor e a realização do documentário.
Bibliografia

ARFUCH, Leonor. O espaço biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea. Rio de Janeiro: UERJ, 2010.

ARAÚJO, Luciana Corrêa. Joaquim Pedro de Andrade: primeiros tempos. São Paulo: Alameda Casa Editorial, 2013.

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Limiar, aura e rememoração. São Paulo: Ed. 34, 2014.

GARRAMUÑO, Florencia. Da memória à presença. In: SOUZA, Eneida Maria de; MIRANDA, Wander Melo (Org.). Crítica e coleção. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2011.

LIMA, Rachel. Esteves. A máquina da memória em movimento. In: SOUZA, Eneida Maria de; LAGUARDIA, Adelaine; MARTINS, Anderson Bastos. (Org.). Figurações do íntimo. Belo Horizonte: Autêntica, 2013

ODIN, Roger. Filme documentário, leitura documentarizante. Significação – ano 39. nº32. São Paulo: USP, 2012. Disponível em: . Acesso 30 ago. 2012.

SARLO, Beatriz. Tempo passado: a cultura da memória e a guinada subjetiva. Tradução de Rosa Freire D´Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras; Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.