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  Título
A perambulação em Irreversível: subversão lírico-poética de Gaspar Noé
Autor
Josette maria alves de souza monzani
Coautor
Mario Sergio Righetti
Resumo Expandido
Essa comunicação visa refletir sobre as características estilísticas da perambulação no filme Irreversível do cineasta franco-argentino Gaspar Noé, de 2002, que se configuram através da montagem e dos movimentos de câmera (travellings, giros, rotações, close-ups) pontuando o gesto lírico-poético do cineasta e o estado emocional dos personagens, e desvelando a representação dos deslocamentos temporal e espacial na diegese. Dessa forma, buscar-se-á a reconfiguração pós-moderna desse traço estilístico cinematográfico, principalmente através das teorizações de Jean Douchet sobre o aspecto da deambulação na Nouvelle Vague e de Ismail Xavier sobre a perambulação. Em Irreversível, pode-se dizer que a perambulação pode ser “técnico estilistica” - quando a câmera sobrevoa e revela os espaços urbanos e seus habitantes; e perambulação “mental/das consciências” - quando reflete as experiências sensório-afetivas dos protagonistas.

Desde os primeiros minutos da narrativa de Irreversível, a partir dos travellings giratórios, aleatórios e nervosos, as perambulações figuram tanto a perseguição dos dois protagonistas atrás do estuprador/antagonista como também revelam o estado alterado de consciência daqueles. Dessa forma, a fluidez da câmera funciona como termômetro do estado psicológico dos personagens e a intensa movimentação dos quadros permite que Noé crie belas transições no tempo e no espaço: no tempo, em função do revés cronológico da narrativa, muitas vezes realizado através de cortes ocultos pela constante movimentação; e, no espaço, graças às fusões que se tornam imperceptíveis também através do movimento intenso.

A obra Irreversível será abordada pelo aspecto sensorial da narrativa, com sua estética experimental intensificada pela câmera errante que vagueia como ‘testemunha’ e narrador não usual e resulta em um discurso nauseante e labiríntico, desestabilizador de certezas no espectador e instigador de sua reflexão posterior. Reflexão sobre a vida nas metrópoles na contemporaneidade e as regras de convivência social nelas em vigor, em uma visão incômoda por parte do diretor - posto que busca tirar o público de sua zona de conforto existencial.
Bibliografia

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(Mestrado) - Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.



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