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  Título
O autoritarismo e o filme político no Brasil contemporâneo
Autor
Cristiane Freitas Gutfreind
Resumo Expandido
A representação do passado, do presente e, talvez, do futuro depende da época e do contexto de realização do filme. A convocação do passado, frequentemente, é tida como uma forma de pensar o presente. Em meio ao momento de crise da democracia por que passamos no país na atualidade, em que somos, segundo Alain Badiou “dominados por um historicismo melancólico, em que existe um puro efeito de passado” (2010, p.376) os filmes que retratam os diferentes períodos autoritários no Brasil, no caso anos 30 e anos 60, merecem atenção. Para isso analisaremos dois documentários Imagens do Estado Novo (Eduardo Escorel, 2016) e O dia que durou 21 anos (Camilo Tavares, 2012) com o objetivo de propor um questionamento sobre o filme político na contemporaneidade.

Essa temática perpassa toda a história do cinema e se atualiza de acordo com as transformações políticas e ideológicas a cada sobressalto da história. O filme político, segundo Vincent Pinel (2000), tem como tema principal a maneira como é governado um Estado e o exercício do poder, a sua conquista e a denúncia dos seus excessos. Apresenta em seu cerne a ideia de busca sobre um aspecto da realidade que foi ocultado, tendo a sua força sustentada por um trabalho de investigação que não é feito pelas instituições oficiais, propondo, assim, uma reconfiguração da história e, por vezes, uma intervenção na realidade. Esses filmes se desdobram, então, em diferentes direções como os filmes relacionados a movimentos de insurreição; filmes militantes que no final dos anos 70 passam a ser designados como “filmes de intervenção”, que mantém a vontade de intervir sobre a sociedade, porém abandonam o dogmatismo característico dos anos 60 e dialogam com outros filmes que não fazem parte do sistema político mas a partir de determinadas estruturas socioculturais podem propor transformações; e filmes que pretendem mobilizar a consciência do espectador sobre questões imediatas da realidade politica e social.

Nesse sentido, analisar Imagens do Estado Novo e O dia que durou 21 anos nos permite pensar sobre o autoritarismo no país através de filmes que se sustentam em um rico acervo de imagens de arquivo como agenciamentos visuais e narrativos de momentos fundamentais da nossa história. Imagens do Estado Novo retrata um momento de grandes transformações políticas e sociais no Brasil e a herança da ditadura varguista (1937-1945), enquanto que o O dia que durou 21 anos, descreve como articulações políticas viabilizaram o Golpe civil-militar de 64. A partir de uma trajetória de pesquisa iniciada em 2009, com financiamento de bolsa produtividade do CNPq, esse recorte de filmes aqui proposto, pretende questionar através da descrição e interpretação do autoritarismo um modo de experiência que acabou com a utopia revolucionária. Esses filmes testemunham o passado e remetem ao presente, provocam o efeito corrosivo de uma reflexão sobre o nosso tempo e constroem uma crítica social e política. Isto significa que esses realizadores propõem um questionamento pelo passado a partir de uma reconstrução pela via do imaginário que permite compreender a história atual e a tornar inteligível.
Bibliografia

BAECQUE, Antoine. L’histoire-caméra. Paris: Gallimard, 2008.

BADIOU, Alain. Cinéma. Paris: Nova, 2010.

BENJAMIN, Walter. Critique et Utopie. Paris : Rivages, 2012.

FERRO, Marc (sous la direction). Révoltes, Révolutions, Cinémas. Paris: Centre Georges Pompidou, 1989.

FICO, Carlos. História do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Contexto, 2015.

KRACAUER, Siegfried. L’Histoire, des avants-dernières choses. Paris : Stock, 2006.

MOINE, Raphaelle. Les genres du cinéma. Paris : Armand Colin, 2008.

PINEL, Vincent. Écoles, genres et mouvements au cinéma. Paris: Larousse, 2000.

RAMOS, Fernão Pessoa. Mas afinal... o que é mesmo documentário? São Paulo: Editora Senac, 2008.

REIS, Daniel Aarão, RIDENTI, Marcelo, PATTO SÁ MOTTA, Rodrigo (Org.). A ditadura que mudou o Brasil – 50 anos do golpe de 1964. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.