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  Título
Pequeno Dicionário Amoroso 2 :recasamento com o mesmo ou com o outro?
Autor
Ney Costa Santos Filho
Resumo Expandido
Ao estudar um grupo de sete filmes produzidos em Hollywood entre 1934 e 1949, aos quais chamou de comédias de recasamento, Stanley Cavell assinalou que o movimento de reaproximação de um casal que por algum motivo está separado, em uma perspectiva filosófica, indicaria a possibilidade de superação do ceticismo, entendido como uma dúvida sobre se realmente podemos conhecer o outro e o mundo. Nesses filmes, sempre um casal adulto e sem filhos busca superar os obstáculos que existem entre eles, gerados na vida em comum e no cotidiano, reconhecendo no parceiro/parceira aquele Outro que só se revela plenamente nessa mesma vida.

Em suas relações com os gêneros do cinema americano, o cinema brasileiro, desde os seus primórdios, muitas vezes se expressou através da paródia, com suas inversões, caricaturas e cortes críticos. Ainda que Pequeno Dicionário Amoroso 2, dirigido por Sandra Werneck e Mauro Farias em 2015, tanto quanto o primeiro filme de 1995, esteja mais próximo à comédia de costumes ele não está imune à paródia, o que faz de modo delicado à temática do recasamento presente nas comédias estudadas por Cavell em Pursuits of Happiness.

A possibilidade de recasamento com Gabriel/ Daniel Dantas, com o qual vivera intensa paixão no primeiro filme, agora se revela frustrante e inviável para Luiza/Andrea Beltrão em meio à crise de seu atual casamento. Quando surge o fotógrafo Guto/ Du Moscovis, a novidade parece estimular uma nova relação afetiva.

Ao final do filme, pedalando solitária nas Paineiras, Luiza/Andrea parece se perguntar se aquele Outro não é o Mesmo, ou os mesmos, e parece perceber que haverá sempre algo impreenchível, uma falta/falha constitutiva do humano, permanente cesura no desejo de plenitude. O Outro existe, mas ele sempre será desconhecido, impossível de conhecer ou reconhecer afirma o ceticismo. Ao contrário dos filmes estudados por Cavell, onde os casais se reencontram e recomeçam, Pequeno Dicionário Amoroso 2 permanece com a dúvida. É nesse ponto, de modo sutil, que o filme se liga à tradição paródica do cinema brasileiro. Nas “remarriage comedy” não há o happy-end clássico, embora nelas sejam felizes os finais. Os personagens retomam o cotidiano como a única possibilidade de alcançar a felicidade; retomam a vida em comum e o recasamento os leva à aceitação da própria finitude e de si mesmos como falhos e imperfeitos.

Se o início da canção It started all over again, cantada por Frank Sinatra com os Pied Piepers e a orquestra de Tommy Dorsey em 1940, indica que o desejo do casal não passou - “It started all over again/The moment I held you so tight/It started all over again/The thrill we can never disguise” -, Pequeno Dicionário Amoroso 2 termina com Luiza/Andrea Beltrão contemplando o Rio que surge em meio à Floresta da Tijuca e ouvimos os versos da canção de Chico Buarque “Não se afobe não/ que nada é prá já/O amor não tem pressa/Ele pode esperar em silencio/No fundo do armário/Na posta restante/Milênios, milênios/No ar.

Ela parece se perguntar se o outro é o mesmo ou se o Mesmo é afinal o tão buscado Outro.

Há uma paz cética ao final do filme, nessa oposição às comédias de recasamento que julgam superar o ceticismo pela possibilidade de conhecimento.
Bibliografia

CAVELL, Stanley. Pursuits of Happiness (The Hollywood Comedy of Remarriage).

Harvard: Harvard University Press, 1981.



BICCA, Luiz. O mesmo e os outros.Rio de Janeiro:Sette Letras,1999

Ceticismo antigo e dialética. Rio de Janeiro: 7 Letras:PUC-Rio,2016



AGAMBEN, Giorgio. Profanações.São Paulo:Boitempo,2007



PIMENTA, Joana. Disponível em filmphilosophy. squarespace.com/1-stanley-cavell, acessado em 08.06.2014