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  Título
Cinema, pintura e literatura: diálogos na obra de Manoel de Oliveira
Autor
Mariana Veiga Copertino Ferreira da Silva
Resumo Expandido
Manoel de Oliveira sempre deixou claro que teve como matéria-prima de sua produção os textos literários e teatrais que transformou através de arrojadas releituras, incorporando à adaptação a sua própria interpretação dos textos além de inúmeras referências a outras formas artísticas. Nesse âmbito do diálogo interartes, há na produção cinematográfica de Manoel de Oliveira três referências literárias que são absolutamente fundamentais. A primeira delas é o escritor Camilo Castelo Branco, grande autor do Romantismo português que desperta no cineasta um verdadeiro fascínio. A segunda é Agustina Bessa-Luis, amiga de Oliveira, sua conterrânea e parceira constante em suas produções. Por fim, a terceira e talvez mais significativa influência literária é José Régio, que apresentou ao amigo cineasta um universo amplo de referencias artísticas, desempenhando um papel fundamental como mentor, parceiro, produtor e crítico da obra de Oliveira.

Os dois artistas foram apresentados por Adolfo Casais Monteiro, outro presencista, em dezembro de 1931, no Porto, depois de uma exibição especial de Douro, faina fluvial para convidados selecionados. Ali iniciaram um diálogo transformado na cumplicidade artística que se estenderia ainda por muitos anos. Durante a juventude do cineasta, o dramaturgo foi de suma importância à medida que o inseriu no universo artístico da época, agindo quase como um padrinho.

Considerando essa relação fundamental, esta comunicação se propõe a analisar as relações estabelecidas entre o cinema de Manoel de Oliveira e as outras artes com as quais ele dialoga. Para tanto, será feita a análise do filme “As pinturas do meu irmão Julio” que explora em uma mesma produção pintura, literatura e cinema. Nessa película, Oliveira aborda o universo da pintura e desenvolve a estrutura da narrativa a partir da construção do olhar sobre as imagens, que têm tanta importância na obra oliveiriana. Nesse filme tão particular, o espectador é conduzido em um tour pela obra de Júlio dos Reis Pereira, pintor, ilustrador e poeta português que registrou em óleo sobre tela as influências vanguardistas que sua arte sofreu no inicio do século XX. O guia do espectador nessa viagem é ninguém menos que o próprio José Régio, irmão de Julio. O filme de Oliveira acaba sendo, de toda forma, uma evocação da figura de Régio através das pinturas de Júlio.
Bibliografia

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