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  Título
Arqueologia do gesto : proposta de estudo “atoral”
Autor
Pedro Maciel Guimaraes Junior
Resumo Expandido
No artigo “La deploration, de Sarah Bernardt a Al Pacino, permanence et migration d’une posture codifié (arts visuels, théâtre et cinema)”, o pesquisador francês Christophe Damour propõe uma enquete iconográfica do gesto do desespero ou lamentação (mãos na cabeça formando um triangulo com relação ao peito; torso, pescoço e cabeça levemente pendidos para trás). Trata-se de uma análise comparativa e genealógica das “sobrevivências” da imagem gestual da lamentação (Didi-Huberman relendo Aby Warburg) que se manifestam na pintura, no teatro, nas artes visuais e até no fotojornalismo. O ponto de partida são os filmes de cinema e Damour faz uma volta ao tempo para buscar as matrizes formais desse gesto que levaram atores de diversas fases do cinema a recorrerem a uma forma preestabelecida, “o gesto codificado e estilizado” para expressar o sentimento que varia entre o desespero, a comoção e o pathos. Damour vai de uma fotografia da representação de Tosca, por Sarah Bernardt, feita por Nadal (1887) até a cena final de O Poderoso Chefão 3 (Coppola, 1990), centrada na figura de Al Pacino. Ambos os atores adotam a postura visual da lamentação. Tendo essa matriz formal como parâmetro, Damour elenca uma série de implicações estéticas e narrativas do fato de se recuperar uma forma gestual através dos tempos.



A partir do texto de Damour, questionaremos a importância do gesto eloquente (Roberta E. Pearson) como local de expressividade do trabalho do ator. Para Para Christian Viviani, o gesto eloquente é aquele que se substitui à palavra para tornar inteligível um estado de espirito consciente ou inconsciente. Propomos o termo de “arqueologia do gesto” pois tal metodologia de pesquisa prevê um recuo na história das formas plásticas e narrativas para pensar como o gesto da lamentação passeia por obras pictóricas, teatrais ou cinematográficas. Um “gesto codificado no teatro clássico” que faz figura de “postura matriz” (Damour) e sofre assim variações formais dependendo do meio e do estilo de cada representação, a despeito de manter constantes formais. Para Damour, trata-se de “estudar a permanência de certas genealogias figurativas e o retorno recorrente de estereótipos visuais para contribuir à história do estilo e do método das formas atorais e técnicas do jogo do ator no cinema”.



O estudo histórico do programa gestual do ator prevê também a discussão entre a teatralidade e a plasticidade. Se o gesto pode ser estudado é por que existe um congelamento temporal da postura ainda que ínfimo e variável de acordo com as épocas e obras. A dicotomia entre “petrificação e jogo, escultura e teatro, alegoria e narrativa” (Dupont) é fundadora do estudo gestual e estará no campo de investigação da “arqueologia do gesto”. Prolongando as questões do “quadro vivo” de Diderot, veremos como o gesto congela a expressão mantendo-se assim expressivo e significante, mesmo fora do movimento.
Bibliografia

DAMOUR Christophe. “La deploration, de Sarah Bernardt a Al Pacino, permanence et migration d’une posture codifié (arts visuels, théâtre et cinema)”. In CARDINAL Serge (org.). Cinémas, L’acteur entre les arts et les médias, vol. 25, no 1, outono 2014.



DIDEROT Denis. La poésie dramatique. Oeuvres completes, vol. 7. Paris : Granier Frères, 1857.



DUPONT Florence. Os Monstros de Sêneca. Paris : Belin, 1995.



PEARSON Roberta E. Eloquent gestures : the transformation of performance style in the Griffith Biograph films. Berkeley : University of California Press, 1992



VIVIANI Christian. L’acteur de cinema, le magique et le vrai. Aix en Provence : Rouge Profonde, 2015.