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  Título
Aspectos inovadores da Construção Narrativa de Som em Interestelar
Autor
Fabrizio Di Sarno
Resumo Expandido
Dirigido pelo britânico Christopher Nolan, o filme Interestelar foi lançado em 2014 tendo como principal apelo comercial a promessa de uma incrível experiência audiovisual. Com este intuito o diretor, já conhecido por filmes como Batman: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, 2012), e A Origem (Inception, 2010), buscou frisar nas entrevistas de promoção do filme que filmou no formato IMAX (produzido pela empresa canadense IMAX Corporation, conhecido por oferecer imagens maiores em tamanho e resolução do que os formatos convencionais). Além disso, Nolan detalhou diversos processos utilizados na produção dos efeitos visuais de Interestelar, vencedor do Òscar nesta categoria.

Para que o som não ficasse aquém das imagens, Nolan contratou uma experiente equipe que contou com o Sound Designer Richerd King, e os engenheiros de mixagem Gregg Landaker e Gary Rizzo, além de contar com o famoso compositor alemão Hanz Zimmer para a trilha musical. A equipe já havia trabalhado no filme A Origem, que rendeu o Òscar de edição de som para King e o de mixagem para Rizzo, em companhia de Ed Novick e Lora Hirschiberg e Zimmer também recebeu uma indicação ao prêmio pela trilha musical. Escorado por este time, o diretor se preocupou em abordar os processos de edição e mixagem sob um novo paradigma em Interestelar, o que lhe rendeu críticas e elogios, mas acima de tudo, fez com que o público se atentasse para a mixagem de som do filme, processo que na maioria dos casos passa desapercebido.

Afirmar que, no cinema, o som é maioritariamente vococêntrico significa lembrar que, em quase todos os casos, favorece a voz, evidencia-se e destaca-a dos outros sons. É a voz que, na rodagem, é captada na tomada de som, que é quase sempre, de fato, uma tomada de voz; e é a voz que se isola na mistura, como um instrumento solista, do qual os outros sons, música e ruídos, seriam apenas o acompanhamento (CHION, 2011, p.13).



Como constata Chion, o vococentrismo é uma característica praticamente unânime no cinema comercial atual. Chion continua afirmando que: “Não se trata da voz dos gritos e gemidos, mas da voz enquanto suporte da expressão verbal. E aquilo que se procura obter quando a captamos não é tanto a fidelidade acústica ao se timbre original, mas a garantia de uma inteligibilidade clara das palavras pronunciadas” (CHION, 2011, p.13).

Na estreia de Interestelar, podemos conferir o resultado de uma proposta estética de som que subverte as regras acima apontadas por Chion. Em diversos momentos do filme, a mixagem de som enaltece a música ou os efeitos sonoros elevando-os acima das vozes, tornando alguns diálogos ininteligíveis aos ouvidos do público. Não se trata de momentos inexpressivos ou de diálogos secundários, mas de fato, diálogos chave para a absoluta compreensão do enredo. Não é de se surpreender, portanto, que as primeiras críticas se referissem ao fato de que a ininteligibilidade destes diálogos prejudicam a compreensão do enredo. De início, essa repercussão negativa refletiu de tal forma que algumas salas de cinema se sentiram na obrigação de avisar o público quanto ao bom funcionamento do seu sistema de som, deixando à cargo da mixagem do filme (creditada ao próprio Nolan) quaisquer problemas encontrados durante a compreensão das vozes. É o caso do cartaz exibido pela rede Cinemark, encontrado em fotos publicadas em sites como o Slashfilm (http://www.slashfilm.com/interstellar-sound-issues-update/ - acesso em 16/05/2016).

Acreditando que a ininteligibilidade observada foi intencional, esta pesquisa busca expor as razões estéticas e tecno-expressivas que levaram o diretor e a equipe de som a produzir tais inovações que renderam, ao mesmo tempo, tanto críticas quanto elogios.
Bibliografia

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BURLINGAME, Jhon. Sound and Vision – Sixty Years of Motion Picture Soundtracks. New York: Billboard Books, 2000.

CHION, Michel. A Audiovisão: Som e Imagem no Cinema. Lisboa: Texto&Grafia, 2011.

_________. Film: a Sound Art. New York: Columbia University Press, 2009.

GORBMAN, Claudia. Unheard melodies – narrative film music. Blommington: Indiana University Press, 1987.

ROEDER, Juan G. Introdução à Física e Psicofísica da Música. São Paulo: EDUSP, 1998.

SIDER, Larry et al (org). Soundscape – The school of sound lectures 1998-2001. London: Wallflower, 2003.

SONNENSCHEIN, David. Sound Design: The Expressive Power of Music, Voice and Sound Effects in Cinema. Los Angeles: Michael Wiese, 2001.

WEIS, Elisabeth, BELTON, John (org.). Film Sound: theory and practice. New York: Columbia University Press, 1985.