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  Título
As cinzas das letras: o cinema e os escritores europeus do pós-guerra
Autor
Pablo Gonçalo Pires de Campos Martins
Resumo Expandido
De forma ímpar, as ruínas da segunda-guerra mundial abrigaram e propiciaram uma das principais interações históricas entre o cinema e a literatura. Talvez por um desejo de escritores e intelectuais de participarem, engajados, dos projetos de reconstrução dos seus países; talvez pelo gesto de produtoras e televisões públicas convidarem esses mesmos sujeitos de letras a elaborarem novas dramaturgias diante da catástrofe que viveram e da herança nazi-fascista. O fato é que o cinema passou a ser uma linguagem comum e versátil. Nesse contexto, os escritores transgrediram os muros e as fronteiras das tradições mais clássicas das letras.

É dento desse amplo panorama geracional que nos deparamos com escritores como Peter Weiss, Samuel Beckett, Marguerite Duras, Alain Robbe-Grillet, Pier Paolo Pasolini, Georges Pérec e Peter Handke que acabaram por tecer mais do que meros flertes com o cinema e que foram, de fato, além de intenções ou de projetos fortuitos. De maneira genérica, pode-se constatar que a maior parte desses escritores concilia tanto uma produção literária com um conjunto coerente de filmes, que configuram obras cinematográficas, paralelas às literárias. Embora tenham estilos e tendências estéticas realmente distantes e distintas, esses escritores compartilharam do mesmo chão histórico. Esta proposta de apresentação no Seminário Temático pretende apresentar, de forma sintética, as motivações e as inquietações estético-políticas que estimularam os escritores a uma efetiva prática intermedial. Mais do que uma crise da escrita, e da literatura, percebe-se como esses escritores – de prosa, teatro e poesia – refugiaram-se no cinema para, dali, reinventarem formas da escrita, e do papel da escritura, dentro dos seus contextos sociais e históricos.

No seio desse debate, propomos três grandes eixos temáticos, que permitem uma compreensão conjunta e comparada desses escritores, a qual, obviamente, não irá se deter nos detalhes estéticos de cada uma dessas obras. O primeiro refere-se às relações entre escrita e mídia; no segundo eixo, elucidaremos brevemente a importância das ekphrasis, paisagens e das locações nas elaborações estéticas desses artistas; no terceiro e último eixo, frisaremos como podemos observar, pouco a pouco, a transformação de um projeto literário, no qual, de Beckett a Pérec, passa-se do escritor intelectual ao escritor performático.

Kittler e Flusser, por outro lado, nos lembram de que a escrita – e a literatura – estão contaminadas por tendências históricas e padrões tecnológicos. São gestos, constantes, marcados por suportes, formas de consolidação e circulação de sentidos. O roteiro, como prática e potência midiática insere-se no seio desse debate. A maioria dos escritores compartilharam a primeira parte dessa experiência. Beckett e Handke, por exemplo, escreveram diversas peças para rádio. Duras e Robbe-Grillet ganharam notoriedade nas colaborações com Alain Resnais, nos filmes como Hiroshima mon amour (1959) e L'anné derniere à Marienbad (1961). Pasolini, ainda jovem, descobriu o cinema na escrita do roteiro e dos diálogos de Noites de Cabíria, dirigido por Fellini. Nos anos setenta, Beckett não se limitaria mais à dramaturgia teatral, passando a escrever tanto o roteiro de Film (1964) como vários scripts para a televisão.



Esses escritores levaram às telas alguns experimentos característicos da literatura: como as imagens líricas e os diálogos dialéticos de Marguerite Duras, o esvaziamento dramático dos personagens de Beckett, lampejos eróticos e acontecimentos visuais puros de Robbe-Grillet, as colagens e a crônica em Peter Weiss, a procura por um cinema de poesia em Pasolini, as relações entre a narrativa, o acaso, as regras restritas (ou mesmo certos dispositivos literários) e a inspiração na hipnose em Georges Pérec; e, por fim, a busca por uma engrenagem narrativa baseada no acontecimento e na presença, como marca o estilo de Peter Handke.
Bibliografia

BECKETT, Samuel. Complet dramatic works. London: Faber and Faber, 2006.



DURAS, Marguerite: Hiroshima mon amour. Gallimard, Paris, 1960.



FLUSSER, Vílem: A escrita: há futuro para a escrita? São Paulo: Editora Anablume, 2011.



HANDKE, Peter: Prosa. Gedichte. Theaterstücke. Hörspiel. Aufsätze. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1971.



HEFFERNAN, James A. W. Museum of words: the poetic of Ekphrasis from Homer to Ashbery. Chicago: The University of Chicago Press, [1993] 2004.



KITTLER, Friedrich:Aufschreibesysteme 1800/1900.Fink Verlag, München, 2003.



PASOLINI, Pier Paolo: O empirismo Hereje. Record, 2008.



PAECH, Joachim: Literatur und film. Stuttgart, Weimar, Metzler, 1997.



PEREC, Georges: Un homme qui dort. Paris, Denoel, 1975.



ROBBE-GRILLET, Alain: Pour un nouveau roman. Les édition de minuit, Paris, 2013.



WEISS, Peter: Der Schatten des Körpers des Kutschers. Suhrkamp, Frankkfurt, 1964.