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  Título
O performer-espectador entre a imagem e o som do projetor de Frampton
Autor
Wilson Oliveira da Silva Filho
Resumo Expandido
As projeções nas performances audiovisuais em tempo real redefinem a experiência do cinema. A expressão live cinema apareceu segundo Makela (2008) em um release do evento Transmediale de 2005 denominando o acompanhamento musical dos filmes nos primórdios. As mesas de ruídos, os acompanhamentos de orquestras ou de artistas solo eram elementos sonoros do “cinema de atrações” (GUNNING, 1995), expressão que sintetizava o cinema dos primórdios e sua vocação de cobiçar o olhar. Acreditamos que o som desse acompanhamento live também fazia parte dessa curiositas agostiniana “A imitação dos ruídos (sonoplastia) é uma técnica tradicional que o cinema toma do teatro. O sonoplasta se coloca atrás da tela com um material heteróclito reunido numa “mesa de ruídos” e acompanha a projeção”. (TOULLET, 1988, p. 50).

Com a sinestésica expressão “o cinema é a música da luz” de Abel Gance ficava evidente que o cinema precisava ser lido como uma performance visual e sonora. O espectador era atraído pela “confrontação que regula o cinema de atrações tanto na forma dos filmes quanto no seu modo de exibição” (GUNNING, 1995). Essa atração se dava sobretudo pelo showmen que conduzia o espetáculo. Hoje com o Vj se amplia uma criação simultânea de som e imagem em tempo real por artistas visuais e sônicos [...] expandindo os parametros do cinema narrativo por uma mais larga concepção do espaço cinematográfico (MAKELA, 2008) coloca o espectador também como parte da performance. Nos anos 60 McLuhan que observava que com a imprensa o homem trocou um olho por um ouvido e na era eletrônica mais trocas nesse sentido se efetuariam já previra que no futuro “Todo mundo poderia ter seu “pequeno projetor barato, para cartuchos sonorizados de 8 mm, cujos filmes serão projetados como num vídeo. Este tipo de desenvolvimento faz parte de nossa atual implosão tecnológica”. (MCLUHAN, 1964, p. 327). Tal implosão culmina na prática das performances audiovisuais em tempo real que ganham salas de exibição, museus e centros culturais, mas também as próprias ruas.

Nossa proposta para esse texto é oferecer alguns indicativos para atualizar o brilhante experimento de Hollis Frampton “Uma conferência” para os dias de hoje como estamos pesquisando em nosso atual projeto de pesquisa. Nos parece uma ideia interessante e necessária para pensar exibição, projeção e espectatorialiadade na cena contemporânea. O longo texto lido por Michael Snow que acompanha o experimento com projetor “Uma conferência” começa assim: “Por favor, desliguem as luzes. [...] Ficamos suspensos assim num espaço nulo, trazendo conosco um certo hábito de afetos. [...]. O projetor é ligado. [...] O executante é uma máquina de precisão”. (FRAMPTON, 2013). Essa precisão da máquina traduz que “a experiência fílmica não é necessariamente uma projeção de luz e sombras numa tela no final da sala, nem uma experiência teatral contendo um proscênio ou dependente de atores atuando para uma audiência” (YOUNGBLOOD, 1970, p. 365), mas um jogo de intermidiatização entre som, imagem, projetor e tela, espectador e performer que se hibridizam.

Uma nova geração de artistas está explorando as possibilidades da projeção de imagem de fontes de filme, o vídeo ou de computadores fora do usual contexto do filme e vídeo experimentais, lidando menos, então, com paradigmas formais estabelecidos sobre o plano, a tela e o público e brincando com as ambiguidades do espaço, movimento e ontologia (GUNNING, 2009, p. 34).

Tal geração já possui uma variedade de trabalhos e artistas que já trabalhamos em alguns artigos. Para esse optamos em trabalhar uma obra em progresso e propor um trabalho que beira uma performance a partir de uma recriação digital do projetor-performer de Frampton pensando ao mesmo tempo um retorno ao texto lido por Michael Snow, comentários de Frampton em “A Holis Frampton odyssey” e teorias que passeiam do cinema de atrações ao expandido que nos ajudem a compreender melhor a poética live nas performances audiovisuais.
Bibliografia

FRAMPTON, Holis. Uma conferência. In: FLORES, Livia; MACIEL, Katia. (orgs.). Instruções para filmes. Rio de Janeiro: e-book, 2013

GUNNING, Tom. O cinema das origens e o espectador (in) crédulo. Revista Imagens, São Paulo: Editora da Unicamp, 1995

______. The long and the short of it: Centuries of projecting shadows, from natural magic to avant-garde. In: DOUGLAS, Stan; EAMON, Christopher (eds.). Art of projection. Ostfiledern: Hanje Cantz, 2009.

MAKELA. Mia The practice of live cinema. Disponível em: http://i40474.wix.com/miamakela#!publications/prn1f. ARTECH Catalogue (2008). Acesso em 16/05/2016

MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1964.

MOURÃO, Patrícia. Chame isso de um jogo entre eu e mim: Hollis Frampton e Marcel Duchamp. In Anais XVIII SOCINE, Fortaleza, 2014.

TOULLET, Emmanuelle. O cinema, invenção do século. São Paulo: Objetiva, 1988.

YOUNGBLOOD, Gene. Expanded cinema. New York: E.P. Dulkton & Co, 1970.