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  Título
O ESTRANHO NO COTIDIANO: LUGAR E DESLOCAMENTO NO CINEMA DE MUYLAERT
Autor
Sandra Fischer
Resumo Expandido
A comunicação ocupa-se do cinema da diretora brasileira Anna Muylaert, focando prioritariamente dois de seus filmes: "Durval discos" (2002) e "Que horas ela volta?" (2015). O objetivo é propor uma reflexão a respeito da peculiar potência subversiva – essa é nossa hipótese – que se aloja nas imagens do estranho que, subitamente, emerge em meio à banalidade cotidiana e instala-se no ambiente fílmico – redefinindo os rumos diegéticos, determinando os arranjos estéticos e subvertendo expectativas. A filmografia da cineasta brasileira Anna Muylaert, marcada por obras que primam pela mistura de gêneros que se alternam entre o dramático e o cômico, caracteriza-se, em certa extensão, pela alusão a elementos surrealistas e pela presença da crítica ao caráter claustrofóbico e muitas vezes perverso de determinadas facetas dos sistemas sociais vigentes. Em tramas ambientadas em cenários urbanos do Brasil contemporâneo e desenvolvidas no espaço e no tempo de cotidianidades cujo semblante exibe a face ‘esquisita’ do ordinário e do banal, personagens aparentemente comuns e figuras de caráter metafórico movimentam-se por entre as veredas da comédia ligeira, do suspense leve, do drama corriqueiro de onde subitamente emergem o estranho e o surreal. Estranho, ressalte-se, na perspectiva em que o termo é definido por Sigmund Freud (1996), segundo o qual o estranho é entendido como “aquela categoria do assustador que remete ao que conhecido, de velho, e há muito familiar”; e surreal, entenda-se, em muito calcado nos moldes de Luis Buñuel. Em "Durval Discos" e em "Que horas ela volta?", o advento inesperado e invasivo da chegada do estrangeiro na cena cotidiana de agrupamentos familiares e sociais – solidamente constituídos, firmemente enlaçados, autocentrados e enredados em normas e convenções cristalizadas porque nunca antes questionadas – desarranja a ordenação do status quo e revela, de forma lenta mas inexorável, os movimentos que perfazem a coreografia perversa do sufocamento e da segregação. O estranhamento inevitável, atrelado ao incontornável desconforto que provoca, desnuda o nonsense e o absurdo implícito em regras que, tácita e silenciosamente, regem, modalizam e regulam a rotina das pessoas e o curso dos acontecimentos – sem que necessariamente os envolvidos se deem efetiva conta dos diversos mecanismos de coerção e segregação implicados nesse processo. De maneira delicada e sutil – ludicamente, por vezes –, e sempre desprovida de qualquer alarde panfletário, os recortes temáticos e os recursos expressivos que perfazem o universo da obra da diretora não apenas apresentam a artificialidade e o anacronismo de determinadas bases que estruturam lugares e posicionamentos em relações familiares e sociais que subsistem e resistem articuladas por meio de mecanismos tacitamente consentidos e mesmo incentivados de controle e exploração, segregação e exclusão, como sediam a crítica e o debate a respeito das condições de produção e funcionamento desses sistemas e suas concernentes implicações e desdobramentos.
Bibliografia

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