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  Título
“ACABOU A PAZ: ISTO AQUI VAI VIRAR UM FILME!”
Autor
ANA LUCIA DE ALMEIDA SOUTTO MAYOR
Coautor
Maria Cristina Miranda da Silva
Resumo Expandido
A linguagem cinematográfica, em suas especificidades expressivas, singulariza-se, entre outros aspectos, por sua capacidade de “capturar” o espectador, na medida em que mobiliza seus sentidos, levando-o, potencialmente, a uma experiência de imersão na sala de cinema. Desde sua invenção, o cinema revelou uma potência intrínseca à sua própria linguagem: envolver o espectador de maneira intensa e totalizante, levando-o, por meio das imagens em movimento, a vivenciar realidades, muitas vezes, bastante distintas e distantes de seu próprio mundo.

De modo mais específico, o documentário, pensado como um campo de tensões e compromissos particulares do cinema, assume – em que pesem inovações e desafios cada vez mais instigantes, notadamente àqueles afeitos às suas relações com o cinema de ficção – um lugar privilegiado de encontro com o real e com o tempo histórico, ainda que saibamos ser impossível escapar da subjetividade contingente ao olhar de quem se dispõe a registrar o mundo à sua volta.

A advertência de Comolli (2001) acerca do “risco do real” aponta para sua natureza, de certa maneira, instável, uma vez que, dada sua aderência à superfície dos fatos, não se pode assegurar, com precisão, suas condições de execução, já que a dinâmica dos acontecimentos, muitas vezes, se sobrepõe à tentativa de mapear e registrar, pelas imagens em movimento, os objetos da própria realização documentária. Além disso, chama atenção para o fato de que, mais do que as condições de financiamento e difusão do filme, o que está em jogo no cinema documentário é o seu próprio objeto, isto é, que grupos, movimentos, indivíduos ou questões se pretendem abordar.

Essas considerações iniciais a respeito do cinema documentário ancoram-se no desejo de analisar e discutir o documentário “Acabou a paz, isto aqui vai virar o Chile” (2016), dirigido por Carlos Pronzato – também diretor de “A rebelião dos pinguins” (2007), sobre o movimento dos secundaristas no Chile -, pensando em possibilidades exploratórias no contexto da educação básica.

A narrativa cinematográfica dirigida por Carlos Pronzato aponta para as relações intrínsecas entre o cinema documentário e a memória, tomada tanto do ponto de vista histórico e coletivo, como no âmbito individual e particular. No caso do filme em questão, interessa-nos examinar, de maneira mais específica, o caráter coletivo do movimento dos secundaristas, ainda que, como veremos ao longo de nossa análise, haja uma valorização dos estudantes como sujeitos, em suas singularidades, porta-vozes de suas próprias narrativas sobre a realidade que habitam.

Para Benjamin (1998, p.229), “a história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de agoras.“ Podemos dizer, considerando o documentário de Pronzato e também suas relações com outras narrativas fílmicas – inscritas no próprio documentário - que o cinema pode ter o papel de atualização do presente, do agora, por meio do relatado, do que é revivido. Trata-se de dar a ver “acontecimentos lembrados” como “chaves” para aquilo que veio antes e pode vir depois.” (BENJAMIN, 1998:37). Nesse sentido, “Acabou a paz...” é como um lampejo na memória entre as diferentes gerações, justo nesse contexto em que a muralha ideológica pretende apagar a história, remetendo o trabalho ao início do século XIX, em que todas as relações eram com os indivíduos, inexistiam contratos de trabalho, associações e sindicatos, lutas coletivas, forjadas coletivamente.

De certa forma, o filme de Pronzato nos apresenta também uma possibilidade de reflexão sobre o próprio cinema e sobre como os jovens vêm sendo sensibilizados (ou não) na escola na educação do seu olhar. Nesse sentido, a imagem cinematográfica revela-se como potência desdobrada do realidade, fazendo da educação do olhar um gesto ético, estético e político de dar a ver o mu
Bibliografia

BENJAMIN, Walter. “Sobre o conceito da História”. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7. ed. – São Paulo: Brasiliense, 1994. – (Obras escolhidas; V. 1)

BENVINDO, Antonio Carlos Silva. “O Rap brasileiro e o dilema da visibilidade midiática”. In: Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Recife, 2011.

COMOLLI, Jean-Louis. “Sob o risco do real”. Publicado originalmente no site www.diplomatie.gouv.fr. Traduzido por Paulo Maia e Ruben Caixeta de Queiroz. Publicado no catálogo do fdorumdoc.bh.2001.

SOUZA, Gustavo. “Uma jornada para o espectador: crer, não crer, crer apesar de tudo. In: MATRIZes. Ano 2 – No. 2 primeiro semestre de 2009.

ZIBAS, Dagmar M. L. “A Revolta dos Pingüins” e o novo pacto educacional chileno”. In: Revista Brasileira de Educação. v. 13 n. 38 maio/ago. 2008. Pp. 199-220.