Voltar para a lista
 
  Título
Imagem, persona, personagem: o ator experimental na Belair Filmes
Autor
Sandro de Oliveira
Resumo Expandido
A Belair Filmes foi uma produtora de filmes-relâmpago, de baixíssimos orçamentos e de produções bastante modestas que, em 1970, produziu seis filmes de longa-metragem. Segundo Ruy Gardnier (2007, pág. 35), a Belair se sobressaiu dentro do escopo problemático do que comumente se chama de cinema marginal brasileiro pela “[...] incrível coerência entre projeto estético e modelo de produção, pelo inequívoco espírito de aventura, pela louca ideia de rodar um filme atrás do outro [...]”.

Dentro do arcabouço mais amplo dos filmes marginais, a Belair Filmes parece ter levado mais adiante as fronteiras do que comumente se chama de ator experimental. No filme Cuidado, Madame!, por exemplo, o diretor Júlio Bressane tentou implementar uma série de experiências com os módulos de atuação: a) um ator, vários papeis; b) discursos afeitos à repetição ad nauseum; c) a improvisação; d) quebra do estatuto clássico da figura gráfica do ator e; e) figurações anômalas.

Dentro do experimentalismo com os módulos de atuação citados acima, a principal via de análise que este trabalho irá sugerir é a quebra de estatuto clássico da figura gráfica do ator: a atriz Helena Ignez encena dois gestos para a câmera, entrecortando-os com movimentos que servem como pontuação para os mesmos: separando partes descartáveis do filme – os ensaios dos gestos - com a parte que efetivamente seria usada na montagem final.

Outra questão que surge como patente nos jeux des acteurs da Belair e, mais precisamente nestas aparições de Ignez no filme Cuidado, Madade!, é a de que estes dois planos geram uma leitura embreativa (PAVIS, 2011) da ação do ator, fazendo com que a ação que se vê na tela venha de modo desnorteador, pois não se sabe se o que vemos é uma imagem gerada por dispositivo mecânico (corpo), uma pessoa “real” (persona) ou personagem ficcional.

Vê-se uma cena de um filme de ficção que nos mostra o ensaiar de uma cena. Ignez expõe a mecânica do gesto e da sua voz algumas vezes, repetindo-os de modo a nos dar a certeza que estamos vendo ali não somente a efetivação de um gesto ensaiado, mas a própria exposição de seu ensaio, dos vários modos como ele poderia ter sido feito.

Patrice Pavis nos dá a chave para esta visão em camadas da imagem do ator no cinema, quando afirma que primeiro se imagina a materialidade do ator presente, como objeto real pertencente ao mundo exterior e que após esta visão, nós imaginamos o ator presente num universo ficcional, já dentro da moldura do personagem que nos chega. Assim, quando fala do personagem no cinema, acrescenta o valor do dispositivo fílmico nessa equação, pois "(...) à cause du dispositif de projection – projection de l’image et projection identificatoire du spectateur au corps engourdi -, le personage filmique paraît bien donné à voir, incarné par une personne humaine, même si au fond, (...), on ne perçoit sur l’écran que des fragments discontinus et limités que nous recoupons et reconstituions selon un effet de personne humaine". (PAVIS, 2000, p. 145)



Assim, o corpo do ator tem este efeito de reconstituir o “efeito humano” na tela, produzindo, no caso da cena citada acima de Ignez, um efeito de encavalamento de instâncias gráficas do ator, acoplando, num mesmo módulo de aparição do ator, instâncias que estão, em outros tipos ou módulos de atuação mais clássicos, retirados do jogo de negociações entre espectador e filme.

Na Belair, as instâncias do ator que são ignoradas ou desprezadas em outras produções cinematográficas aqui fazem parte mesmo da carnadura que forma estes filmes, desestabilizando nossa já acomodada visão do jogo ficcional no cinema clássico, onde a persona e o personagem são as únicas moedas de troca entre enunciação e espectador. Tem-se aqui, na Belair, outro aspecto do ator: seu corpo mostrado fora do personagem, uma identidade latente.
Bibliografia

BRENEZ, Nicole. Are we the actors of our own life? Notes on the experimental actor. Valencia, L’Atalante – Revista de Estudios Cinematográficos, 2015.

GARDNIER, Ruy. As experiências da Belair: exceção ou regra? In: A invenção do cinema marginal. Rio de Janeiro: Associação Cultural Tela Brasilis/ Cinemateca do MAM, 2007.

GUIMARÃES, Pedro Maciel. Cinema, a arte da pose e do aparecer - Os filmes da Belair. Revista Beta, 2010.

--------------. Helena Ignez: Ator-Autor. Entre a histeria e a pose, o satélite e a sedução. In: VII Encontro Nacional da Associação Brasileira de Artes Cênicas. (ABRACE), 2012.

MITRY, Jean. Le cinema expérimental – histoire et perspectives. Paris: Editions Seghers, 1974.

NAREMORE, James. Acting in the cinema. Berkeley: University of California Press, 1988.

PAVIS, Patrice. A análise dos espetáculos. São Paulo: Perspectiva, 2011.

--------------. Le personnage romanesque, théâtral, filmique. In: _______. Vers une théorie de la pratique théatrale. Setentrional,