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  Título
Quando o filme nos olha: O uso do portrait em A Vizinhança do Tigre
Autor
bruno saphira ferreira andrade
Resumo Expandido
Sermos interpelado por alguém, olho no olho, através de uma imagem filmada tem uma força particular. Talvez pelo desvelar da postura de voyeur do espectador. Talvez pelo desvelar do mecanismos fílmico, expondo o que há entre um olhar e outro. Ou por corporificar uma presença que não há, e que passa pelo estabelecimento de uma cumplicidade entre quem filma, quem é filmado e quem assiste à filmagem. São muitas as possibilidades de atribuição dessa força, e elas não se excluem, necessariamente. O encontro desses olhares promove tipos de atravessamento do meio que o possibilita, e o faz pela cumplicidade.

Reagir à câmera é inevitáveis num processo de filmagem. Evidenciar ou não sua presença servem também como traço para a separação e caracterização dos gêneros documentais e ficcionais no cinema, mesmo que à rigor tal critério não seja suficiente. Mas, de certa forma, o reagir à câmera, de forma a evidenciar sua presença na cena, mesmo que não aparente, nos é comumente apresentado como um gesto documental.

Dentre as reações, destaca-se aqui a mirada para as lentes da câmera. O olhar para a câmera, que gera o efeito de olhar para o possível espectador, foi utilizado de diversas maneiras em filmes documentais e ficcionais, em experimentos audiovisuais, como os conhecidos screem tests de Andy Warhol, e até mesmo em anúncios publicitários de veiculação televisiva, além de ser prática recorrente em telejornais.

Porem, tal recurso tem sido utilizado com certa recorrência em filmes da atualidade, não apenas brasileiros, que são compostos estabelecendo elos de convivência de aspectos documentais e ficcionais, o que ao mesmo tempo especifica e potencializa nossa experiência diante da interpelação que essa postura gera.

No caso do filme A Vizinhança do Tigre (Affonso Uchoa, Brasil, 2014) há uma sequência composta inteiramente pelos portraits - termos em inglês assumido nos meios de produção audiovisual, que corresponde a um plano - de enquadramento médio, normalmente - em que a pessoa filmada mira a câmera, em silêncio, simulando a postura de quem pousa para um retrato. Um retrato com as características dos que são exigidos para documentos pessoais. A sequencia está situada no meio do filme, em termos não apenas temporais, e convive, por assim dizer, com outra proposta de construção de cena, em que as personagens atuam sem expor a presença de uma câmera. Essa aparição, repentina, faz o filme nos olhar. Inverte momentaneamente o sentido da mirada, e nos estimula a voltarmos a atenção de forma ainda mais contundente ao que nos é mostrado e à forma como o vemos.

O objetivo dessa analise é discorrer sobre a presença dos portraits/retratos em filmes ambivalentes a partir de A Vizinhança do Tigre, sob a premissa de que o uso desse recurso em tais filmes não restringe sua impactação a uma ancoragem documental, mas fortalece, paradoxalmente, as dimensões entre a realidade que nutre a obra e a obra enquanto própria realidade, potencializadas pelos gestos de composição que se valem da mescla de procedimentos documentais e ficcionais. Para tanto dois aportes teóricos principais serão trabalhados.

Quanto às questões que concernem aos elos entre o documental e o ficcional, com foco no cinema, serão trabalhados os escritos do filósofo Jacques Rancière que abordam o sentido de “convivência dos contrários”, abarcado pelo que o autor identifica ser o “regime estético das artes”. As formulações do autor, que abrange o campo das artes e seus necessários rebatimentos políticos, chegam também a especificidades do cinema documentário a partir da ideia de ficção que emerge no seio desse novo “regime”.

Quanto à ideia de uma imagem que nos olha, que não se restringe aos portraits mas é por eles de certa forma emblematizada, o trabalho se debruçará sobre as formulações do filosofo George Didi-Huberman acerca de alguns dos aspectos da imagem, não apenas cinematográfica, que estabelecem um duplo regime do olhar em nossa experiência sensível.
Bibliografia

AUMONT, Jacques. Limites de la fiction: considerations actuelles sur l’état du cinéma. Paris: Bayard, 2014.

DIDI-HUBERMAN, Georges. L’Image brûle. In: Penser par les images: Autour des travaux de Georges Didi-Huberman. Nantes: Éditions Cécile Defaut, 2006.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Imagens apesar de tudo. Lisboa: KKYM, 2012b.

DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Ed. 34, 1998.

Niney, François. L’Épreuve de reel à l’écran: essais sue le principe de réalité documentaire. Bruxelles: Editions De Boeck Université, 2011.

RANCIÉRE, Jacques. A fábula cinematográfica. Campinas, SP: Papirus, 2013. RANCIÉRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Editora 34, 2009.

RANCIÉRE, Jacques. L’Inoubliable. In: Arrête sur histoire. Paris: Editions du Centre Pompidou, 1999.

RANCIÉRE, Jacques. O inconsciente estético. São Paulo: Editra 34, 2009.